A expressiva bancada que o PL terá no Senado a partir de 2027 representará um desafio inédito de articulação política para o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e para os parlamentares da base aliada. Com a perspectiva de ocupar sozinha mais de um terço da Casa, a legenda de Jair Bolsonaro exigirá novas táticas dos partidos progressistas para garantir a governabilidade e barrar propostas contrárias aos seus interesses.
Cenário político e nova composição Caso os números atuais sejam confirmados até a posse em fevereiro, o PL contará com 28 dos 81 senadores, após eleger 19 parlamentares no último pleito. Trata-se da maior bancada partidária no início de uma legislatura desde a promulgação da Constituição de 1988, superando o recorde anterior do MDB. Em contrapartida, PT, PSB, Rede e PDT deverão somar apenas 15 cadeiras, enquanto outros 37 lugares ficarão distribuídos entre siglas do centro e da direita, além de um parlamentar sem partido.
Desafios na articulação e pautas de costumes Parlamentares veteranos e novatos avaliam que o ambiente legislativo será marcado por maior rigidez ideológica. O senador reeleito Humberto Costa (PT-PE) aponta que o perfil dos novos integrantes é mais combativo, o que deve intensificar debates sobre segurança pública e pautas de costumes, como restrições ao aborto — prática legalizada no Brasil em casos de estupro, risco de vida para a gestante e anencefalia.
“Há diálogo com algumas pessoas, mas a grande maioria segue uma orientação única. Fazem questão de apresentar emendas. Uma bancada muito ativa em apresentar propostas que são maléficas para a população brasileira e fazem um tipo de oposição que é uma oposição sem muito diálogo”, afirmou Humberto Costa.
Apesar das dificuldades, Costa acredita que o governo conseguirá aprovar matérias já consolidadas, como o fim da escala de trabalho 6×1. Para a presidência do Senado, o petista defende alianças com o centrão e sinaliza apoio a Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), desde que não haja concessões em temas como a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.
Estratégias da base para evitar retrocessos Diante desse cenário, senadoras eleitas como Samanda de Lula (PT-RN) e Marília Arraes (PDT-PE) enfatizam a necessidade de unir firmeza parlamentar, articulação política e mobilização social para blindar conquistas trabalhistas e direitos das minorias.
“Para evitar retrocessos, será preciso combinar atuação parlamentar, articulação política e mobilização da sociedade”, disse Samanda.
Complementando a visão, Marília Arraes destaca a importância de dialogar com setores da sociedade distantes da esquerda.
“Precisamos conversar com quem pensa diferente, ouvir as insatisfações e mostrar como nossas propostas respondem aos problemas reais de segurança, emprego, renda, saúde e oportunidades”, disse Marília.
Visão dos parlamentares sobre o equilíbrio de forças Adotando um tom de cautela, o senador Cid Gomes (PSB-CE) afasta cenários de alarmismo com o crescimento da oposição. Embora o grupo oposicionista tenha tamanho suficiente para requerer uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), ele avalia que ainda falta densidade numérica para formar uma maioria absoluta no plenário.
Sobre a sucessão na mesa diretora, Cid enxerga divisões internas no campo conservador que favorecem a articulação de Alcolumbre.
“O que eu tô vendo é que eles lá não se entendem. Rogério Marinho (PL-RN) quer ser candidato, Tereza Cristina (PP-MS). Muito mais fácil o Davi conseguir uma maioria pelos partidos”, afirmou.
Por fim, a senadora Marília Campos (PT-MG) pretende utilizar sua vivência no Poder Executivo municipal para costurar acordos pragmáticos focados nas demandas das cidades, equilibrando o embate político com a entrega de resultados legislativos concretos.
“Retrocesso se evita de dois jeitos. Um é firmeza em direito do trabalhador, das mulheres, na proteção social e na democracia. Não tem negociação. O outro é ter voto, e voto se constrói com relação. Quem conversa com os colegas o ano inteiro tem mais condição de virar uma votação na hora decisiva”, afirmou Marília Campos.






