A recuperação de áreas degradadas no Cerrado desempenha um papel fundamental na conservação dos recursos hídricos que abastecem o Pantanal. Um levantamento conduzido pelo WWF-Brasil revelou que terrenos em processo de regeneração vegetal há três anos conseguiram reter 79% mais solo em comparação com áreas de terra expuesta. Além disso, a pesquisa apontou um crescimento de 44% na taxa de infiltração de água da chuva.
Metodologia e abrangência do estudo ambiental Desenvolvida entre 2022 e setembro de 2026, a pesquisa abrangeu 85 municípios e 16 sub-bacias hidrográficas situadas na faixa de transição entre o Cerrado e o Pantanal. O trabalho foi estruturado em duas etapas principais: o planejamento e diagnóstico das regiões prioritárias, seguido pela execução de práticas de restauração, conservação do solo e suporte técnico aos produtores rurais.
Para mensurar a retenção de sedimentos, a equipe científica utilizou simuladores de chuva em campo. Os equipamentos aplicaram precipitação controlada sobre parcelas delimitadas, possibilitando a comparação direta entre o volume de terra carregado em solos degradados e o material recolhido em áreas em recuperação. Os dados comprovaram que a vegetação e a camada de palhada amortecem o impacto das gotas de chuva, reduzindo a velocidade do escoamento superficial e prevenindo o assoreamento dos rios. O acréscimo de 44% na infiltração, por sua vez, favorece a recarga dos lençóis freáticos e a sustentação dos fluxos de água.
O impacto humano e social na produção de mudas O esforço de recomposição ecológica conta com a dedicação de profissionais como o viveirista Nereu Rios, de 68 anos, que soma mais de quatro décadas de atuação na área em Mato Grosso do Sul. Ele planta árvores nativas e percorre milhares de quilômetros anualmente para coletar sementes que mantêm a diversidade genética da região e movimentam a economia de comunidades tradicionais.
“Quando vim para Campo Grande, ainda menino, entendi que cuidar de plantas e recuperar a vegetação era a minha missão. Tá no DNA”, relembrou Nereu.
No Viveiro Isaac de Oliveira, mantido em Campo Grande em parceria com a concessionária Águas Guariroba, são produzidas cerca de 90 mil mudas anualmente de 85 espécies nativas. O local também emprega reeducandos do Centro de Integração Social da Gameleira, promovendo capacitação profissional e reinserção social.
Segundo o gerente de meio ambiente da Regional da Aegea, Fernando Garayo, a seleção adequada das espécies é indispensável para o sucesso ecológico.
“Não basta plantar árvores: é preciso selecionar espécies adequadas para cada ambiente, respeitando as características do Cerrado e as particularidades de cada área. Em margens de rios e nascentes, priorizamos plantas compatíveis com a umidade; em solos mais secos, espécies resistentes à estiagem. A diversidade é fundamental para aproximar a área recuperada do ecossistema original. E o trabalho não termina quando a muda vai para o chão: a restauração exige monitoramento contínuo para que a vegetação cumpra sua função de proteger a água”, explica Garayo.
A conexão vital entre o planalto e a planície pantaneira A relevância do Cerrado para a planície pantaneira fundamenta-se na geografia, visto que o bioma abriga as cabeceiras dos principais rios da região. Conforme aponta o biólogo Gustavo Figueirôa, do SOS Pantanal, aproximadamente 80% da água e dos sedimentos que sustentam o ecossistema pantaneiro originam-se no planalto.
“Quando você preserva o Planalto, recupera as nascentes, permite que a água da chuva seja absorvida, entre no lençol freático e escorra de forma cadenciada para o sistema. O Pantanal depende diretamente da água que nasce no Cerrado para manter seu ecossistema. Às vezes não conectamos o Pantanal a outros biomas de forma instintiva, mas ele está intrinsecamente ligado à saúde de seus vizinhos”, destaca Gustavo.
A ausência de cobertura vegetal acelera o escoamento hídrico e intensifica o carreamento de sedimentos, agravando problemas históricos como o assoreamento do rio Taquari. Em contrapartida, pastagens bem manejadas também demonstram melhorias significativas, elevando em 59% a retenção de solo e em 34% a infiltração de água.
Retorno financeiro e projeções globais Sob a perspectiva econômica, a conservação das cabeceiras apresenta alta eficiência. Uma análise de custo-benefício realizada pelo WWF-Brasil em parceria com a Aegea indicou que cada R$ 1 investido em restauração pode gerar até R$ 8 em retornos ambientais e socioeconômicos, incluindo a redução nos custos de tratamento de água e o aumento da produtividade agrícola.
Os resultados obtidos nas Cabeceiras do Pantanal ganharam destaque internacional durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), na Armênia. Na ocasião, o Brasil reafirmou seu protagonismo na área, destacando-se como o único país com duas iniciativas reconhecidas pela ONU como Referências da Restauração Mundial.
“A natureza não funciona de forma fragmentada, e nossas políticas e investimentos também não deveriam funcionar assim. Restaurar nos lugares certos, reconectando habitats e protegendo os caminhos da água, amplia os benefícios para a biodiversidade, o clima e a economia. Essa é uma mensagem importante que levamos à COP17: precisamos transformar compromissos globais em condições concretas de implementação nos territórios”, explica Taruhim Quadros, líder de Restauração e Ecossistemas do WWF-Brasil.
Apesar da recente queda histórica no desmatamento do Cerrado aferida pelo Inpe, o desafio da recuperação persiste, visto que 58% da paisagem das Cabeceiras do Pantanal foi alterada e grande parte das pastagens permanece degradada.






