O modelo de mobilização digital que marcou a campanha presidencial brasileira em 2022 ultrapassou as fronteiras nacionais e passou a ser adotado por movimentos partidários na Europa e na América Latina. Inspirados pela atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG) na sustentação digital de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), coletivos estrangeiros registraram um salto expressivo em suas bases de apoiadores em um intervalo de apenas 48 horas.
Crescimento acelerado no exterior
Entre os principais reflexos internacionais dessa tendência, três grupos de destaque na Espanha, na França e na Argentina viram seus números dispararem após adotarem métodos semelhantes de articulação em redes e aplicativos de mensagens. Somadas, essas comunidades passaram de 123 mil para 249 mil pessoas, consolidando uma expansão superior a 100% em curtíssimo prazo.
Na Argentina, o movimento Ejército del Peronismo, associado à ala jovem e progressista da oposição ao governo de Javier Milei, avançou 46,34%, saltando de 41 mil para 60 mil membros. Já na França, o coletivo L’équipe de Mélenchon officielle, voltado aos simpatizantes do líder esquerdista Jean-Insubmissa, disparou 157,89% ao ir de 57 mil para 147 mil cadastrados. Por fim, na Espanha, o grupo La fuerza de la gente, focado em respaldar o primeiro-ministro Pedro Sánchez, do PSOE, cresceu 68% e alcançou 42 mil integrados.
Convites internacionais e repercussão
O impacto dessa metodologia de guerrilha virtual chamou a atenção de lideranças do exterior. O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez convidou o parlamentar mineiro para colaborar em sua campanha, cujos pleitos estão programados para o final de novembro. Da mesma forma, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum estendeu um convite para uma visita de trabalho, de olho no pleito presidencial agendado para junho de 2027.
Limitações culturais e o futuro das campanhas
Apesar da repercussão internacional, especialistas apontam que a transposição integral do método brasileiro pode encontrar barreiras culturais. Para o cientista político Giuliano Salvarani, as dinâmicas de comunicação e a relação com a política no cotidiano variam consideravelmente entre as nações.
“Não acredito que a estratégia de Janones tenha o mesmo impacto nesses outros países, até porque eles possuem outra forma de se socializar nas redes sociais e nos aplicativos, que inclusive são diferentes dos que usamos frequentemente aqui. É um modelo que pode ser aproveitado, mas não necessariamente replicado”, disse o cientista político Giuliano Salvarani.
O pesquisador também destaca que a alta conectividade do eleitorado nacional e o forte engajamento com debates públicos criam um cenário único no Brasil.
“O Brasil é um dos países que mais utiliza plataformas digitais do mundo. Além disso, a política faz parte da nossa cultura. É sobre política que discutimos nos grupos, entre amigos, no família e no trabalho. Hoje em dia mais do que futebol, fofoca ou cultura”, contou o cientista político Giuliano Salvarani.
Apesar dos desafios de adaptação, a avaliação geral é de que o formato veio para ficar e tem potencial para transformar as disputas eleitorais daqui em diante.
“O que funcionou aqui certamente vai ditar o rumo das campanhas eleitorais no Brasil pra próxima década e tenho certeza que será produto de exportação em todo o mundo. Janones inventou uma forma de mobilizar igual Guardiola aperfeiçoou o “Tik-taka” no futebol do Barcelona ou como João Gilberto tocou seu violão na Bossa-Nova”, concluiu o cientista político Giuliano Salvarani.






