O roubo de US$ 6,3 bilhões em criptomoedas da Binance, apontado como um dos maiores ataques da história do setor, recolocou em evidência a discussão sobre a segurança de ativos digitais e os limites das coberturas oferecidas por seguradoras.
Como funciona o mercado de proteção para ativos digitais
O seguro de ativos digitais engloba diferentes modalidades de apólices voltadas a corretoras, empresas de custódia e outras organizações do ecossistema cripto contra perdas decorrentes de invasões, fraudes e falhas técnicas. O mercado global movimentou US$ 9,37 bilhões em 2025 e tem projeção de alcançar US$ 184,98 bilhões até 2033, impulsionado pela entrada de instituições e pelo aumento de crimes cibernéticos, de acordo com dados da consultoria Data Bridge Market Research.
As apólices costumam ser divididas em categorias específicas, como seguro contra crimes, proteção contra violações de segurança, cobertura para erros e omissões em softwares, salvaguardas para executivos e responsabilidade tecnológica. No entanto, a obtenção de ressarcimento depende de critérios rigorosos, como o método de invasão, a modalidade de armazenamento e as regras estabelecidas em contrato.
Estratégias de compensação e reservas financeiras
Diante de incidentes de segurança, o pagamento dos valores pode envolver uma combinação de capital próprio, acionamento de apólices e reservas de emergência. A Binance, por exemplo, instituiu em julho de 2018 o Fundo de Ativos Seguros para Usuários (SAFU, na sigla em inglês), uma reserva voltada a proteger os clientes em cenários extremos.
Em 2026, o fundo acumulava aproximadamente US$ 1 bilhão em ativos digitais, mantidos integralmente em bitcoin, conforme registros públicos da própria plataforma. Quando os danos superam o teto estipulado no contrato de seguro, a empresa afetada precisa recorrer exclusivamente ao seu próprio caixa ou a alternativas de recuperação para honrar os compromissos com os usuários.
Limitações e critérios para negação de cobertura
A existência de um contrato não garante o reembolso integral, já que as apólices preveem exclusões específicas. Entre os motivos mais recorrentes para a recusa de pagamento estão flutuações severas no preço dos ativos, atos fraudulentos praticados pelo próprio segurado e falhas operacionais na custódia das chaves privadas.
“As empresas de ativos digitais e, cada vez mais, seus clientes institucionais precisam entender exatamente o que está coberto, onde se aplicam as exclusões e os sublimites e quais riscos são retidos”, afirmou Jacqueline Quintal, líder do setor de instituições financeiras e ativos digitais da Marsh, à Reuters.
A especialista também pontuou que a mitigação de riscos vai além da contratação de apólices. “Dada a possível lacuna entre a perda provável/possível e a capacidade de seguro disponível, a tecnologia e os controles de segurança, uma governança sólida e solidez financeira são igualmente importantes para a resiliência”, declarou.
Análise técnica e o papel dos seguros tradicionais
Um dos principais entraves é que apólices tradicionais contra crimes ou riscos cibernéticos raramente cobrem o roubo direto de criptomoedas, sendo voltadas principalmente para bens físicos ou despesas acessórias, como custos de investigação e assessoria jurídica. Por essa razão, a proteção integral exige a contratação de produtos especializados.
Para definir se haverá indenização, as seguradoras conduzem auditorias detalhadas para examinar a dinâmica da invasão, o comprometimento dos sistemas e o cumprimento de protocolos de segurança, diferenciando, por exemplo, um ciberataque externo de ações internas maliciosas.






