As recentes eleições brasileiras demonstraram mais uma vez como o cenário político possui o poder de provocar fortes oscilações no mercado financeiro. Desde o início do ano, taxas de juros, cotações de câmbio e o Ibovespa registraram constantes variações impulsionadas por pesquisas de intenção de voto e discursos de candidatos, refletindo as expectativas dos investidores sobre os rumos econômicos do país.
O impacto das pesquisas e das urnas
A virada do presidente Lula (PT) no segundo turno surpreendeu parte dos agentes financeiros, gerando um momento de estresse com forte alta do dólar e queda da bolsa. Anteriormente, a liderança de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno e em pesquisas anteriores era vista pelo mercado como mais favorável ao equilíbrio fiscal, gerando reações distintas nos ativos financeiros conforme a probabilidade de vitória de cada candidato se alterava.
“Os preços refletem expectativas sobre crescimento, inflação, juros e, no Brasil, sobretudo a trajetória fiscal”, explica Rogerio Freitas, chefe de investimentos do ASA.
Como a política afeta os diferentes mercados
O mercado financeiro costuma sofrer turbulências porque os investidores tentam antecipar os efeitos de propostas governamentais sobre a economia. Enquanto a bolsa reage ao desempenho corporativo e à perspectiva de crescimento, o dólar responde diretamente à percepção de risco e à movimentação de capitais estrangeiros no país.
Medidas de impacto fiscal, como o reajuste do Bolsa Família anunciado semanas antes da votação, também pesam na avaliação das contas públicas, provocando a desvalorização da moeda nacional e quedas expressivas no índice acionário.
Fatores externos e resiliência dos mercados
Contudo, nem sempre a turbulência política dita o ritmo absoluto da economia. Especialistas apontam que, em determinados contextos, o cenário internacional e a liquidez global acabam mitigando crises políticas locais, como ocorreu durante o escândalo do Mensalão em 2006, quando o forte fluxo de capital estrangeiro e a alta das commodities mantiveram a política em segundo plano.
“Há períodos em que, mesmo diante de escândalos políticos, outros fatores pesam mais, como o fluxo de capital estrangeiro para o país”, afirma Alvaro Maia, banker da StoneX. O analista acrescenta: “Isso porque havia mais dinheiro circulando nos mercados internacionais, os bancos no exterior estavam mais dispostos a emprestar recursos, as commodities estavam em alta e as ações brasileiras eram negociadas a preços relativamente baixos em relação aos resultados das empresas. Então, a política acabou ficando um pouco em segundo plano”.
Estratégias de proteção para investidores
Diante de cenários de alta volatilidade motivados por embates eleitorais e noticiários políticos, profissionais da área recomendam cautela e planejamento para proteger o patrimônio, destacando a atratividade da renda fixa em momentos de juros elevados.
“Em um momento em que temos juros em dois dígitos, a renda fixa está especialmente atrativa. São várias opções, com destaque para os títulos públicos prefixados ou para os fundos de renda fixa”, comenta Maia.
Por fim, especialistas reforçam que a disciplina financeira é fundamental para atravessar instabilidades sem prejuízos precipitados.
“A volatilidade tende a crescer perto das eleições, mas os primeiros atos do eleito pesam mais que o discurso de campanha. Mas cada eleição precisa ser lida no seu próprio contexto”, diz Freitas, que complementa: “Grande parte do resultado vem da forma como os investimentos são distribuídos. Diversificar, inclusive no exterior, ajuda a reduzir riscos, enquanto uma reserva de fácil acesso evita que o investidor precise vender ativos em momentos de queda. O tempo é o maior aliado”.






