A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo (25.out.2026) resultará em benefícios a grupos e pessoas que seriam prejudicadas no caso de vitória do adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Como Lula se mantém no cargo, os benefícios a esses grupos e pessoas está na manutenção da situação atual, não em ganho real. A vantagem está na comparação com a alternativa no 2º turno da eleição presidencial.
Cenário político e impacto institucional
A preservação ambiental será favorecida na comparação com o eventual governo e Flávio. Lula reduziu o desmatamento em seu 3º mandato, a partir de 2023. No Congresso, será favorecido o Centrão, grupo sem claro viés ideológico disposto a se aliar a governos de esquerda ou de direita. O apoio desses congressistas terá maior peso do que seria com a alternativa, com a vitória de Flávio.
Entre os principais nomes da política nacional, as repercussões variam. Alexandre de Moraes, ministro do STF, terá maiores chances de evitar o impeachment pelo Senado do que se Flávio Bolsonaro fosse eleito. Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), atual presidente do Senado, vê suas chances de reeleição aumentarem. Hugo Motta, presidente da Câmara, também tem maiores possibilidades de se manter no cargo com o petista no comando. André Janones (Rede-MG), deputado crucial na campanha de Lula no 2º turno com o canal digital Exército de Lula, provavelmente terá um cargo no governo.
Por sua vez, Michelle Bolsonaro (PL-DF) tem situação indefinida: de um lado, pode ganhar ao se apresentar como alternativa da direita para a próxima eleição presidencial; de outro, na oposição, terá de se dedicar a conseguir espaço no Senado. Valdemar Costa Neto, presidente do PL, deixa de ter influência sobre o governo que teria com a eleição de Flávio, mas se mantém como o comandante do maior partido do país. Tarcísio de Freitas, governador (Republicanos) de São Paulo, torna-se o candidato natural da direita nas eleições de 2030, quando não poderá mais ser reeleito para o cargo atual. Gilberto Kassab, presidente do PSD, mantém influência no governo, que provavelmente terá 3 ou 4 ministros de seu partido.
Fernando Haddad, candidato derrotado para o governo de São Paulo na 2ª tentativa, tem a chance de se manter na política comandando algum ministério. Marina Silva, que perdeu a eleição como candidata (Rede) ao Senado por em São Paulo depois de ser ministra do Meio Ambiente, pode voltar ao governo com Lula no poder. Dilma Rousseff, ex-presidente da República (PT), não terá impedimento para continuar na presidência do NDB (New Development Bank), o banco dos Brics.
No parlamento e nos estados, o panorama se divide. Deputados e senadores de direita serão oposição e terão mais força que na legislatura passada, mas terão pouca influência nas políticas de governo. Já os congressistas de esquerda terão mais força com a máquina do governo ao seu favor, enquanto os parlamentares do Centrão terão maior poder nas negociações com o governo, que dependerá deles para formar maioria, ao contrário de um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Governos estaduais de direita terão menos interlocução com o Planalto, enquanto os governadores de esquerda desfrutarão do cenário inverso.
Reflexos na economia
Os assalariados de baixa renda tendem a ser beneficiados pela manutenção de altas reais do salário-mínimo. Mas os de renda média e alta devem ser prejudicados por impostos mais altos do que haveria com Flávio. Os juros deverão se manter em patamar mais elevado do que seriam com outro governo. Houve piora nas contas públicas no governo Lula. A alta dos gastos obriga o BC (Banco Central) a manter uma política monetária mais restritiva. Isso torna o crédito mais caro e reduz a lucratividade de empresas.
Nos mercados e setores produtivos, bancos perdem com a ausência de sinalizações para um ajuste fiscal eficiente que mantém pressão sobre as taxas de juros. O varejo perde porque os juros mais elevados são um problema para as contas parceladas, assim como a manutenção da taxa das blusinhas, que isenta produtos de plataformas de e-commerce de fora do país até US$ 50, enquanto produtos brasileiros não têm o mesmo benefício. Investidores na Bolsa perdem com a tendência de desvalorização das ações e redução no volume de IPOs: foram 78 no governo Bolsonaro e 1 no governo Lula. Por outro lado, investidores em renda fixa ganham: sem a sinalização de um ajuste fiscal, os juros tendem a ficar altos, favorecendo quem deixa o dinheiro em títulos do Tesouro, por exemplo.
O agronegócio apresenta cenário indefinido, já que Lula não tem boa relação com empresários e políticos do setor, embora uma preocupação de seu governo no atual mandato tenha sido ganhar mercados para o segmento. As empresas industriais também ficam em situação indefinida; Lula tentou uma série de iniciativas para impulsionar a indústria nacional em seu 3º mandato, mas as ações vieram juntas a uma ampliação em benefícios para indústria de fora, como a taxa das blusinhas ou a cota de importação sem tarifas para carros elétricos chineses.
Impactos na sociedade
Beneficiários do Bolsa Família ganham, pois Lula tende a dar aumentos reais ao grupo com mais frequência que Flávio. Assalariados de baixa renda ganham com a correção do salário-mínimo acima da inflação, sendo improvável que haja mudança nas regras de jornada de trabalho e descanso semanal aprovadas no atual governo. Assalariados de renda média ou alta perdem, pois os impostos tendem a ficar em patamar mais alto do que seriam em um governo de Flávio Bolsonaro, cujo crescimento econômico tenderia a ser maior, favorecendo oportunidades aos mais escolarizados.
Funcionários públicos ganham, já que Lula costuma ser favorável a uma política de aumento real nos ganhos desses trabalhadores. Indígenas ganham porque o novo governo deverá demarcar novas áreas indígenas, o que Flávio Bolsonaro não faria. Ambientalistas ganham por terem mais interlocução com o governo Lula do que com Bolsonaro, lembrando que Lula reduziu o desmatamento em relação ao governo anterior.






