Home / Política / A estratégia de desumanização de eleitores na política brasileira

A estratégia de desumanização de eleitores na política brasileira

Enquanto Janones espalha fakes, a imprensa demoniza os eleitores de Flávio

Enquanto estratégias digitais de desinformação circulam em aplicativos de mensagens, veículos de imprensa adotam métodos específicos para afastar eleitores indecisos do candidato conservador, destacando condutas individuais como se fossem características gerais de um grupo.

A generalização de comportamentos

Reportagens focam frequentemente em episódios isolados de violência, misoginia ou racismo para rotular o eleitorado de direita como uma ameaça aos valores sociais e humanos. Essa prática de transformar casos particulares em um padrão coletivo é uma tática comum de embate político, embora conte com diferentes níveis de alcance estrutural conforme a ala ideológica.

Raízes históricas na Roma Antiga

A desumanização do opositor não é nova e remonta a conceitos debatidos por pensadores clássicos. O escritor italiano Umberto Eco abordou o tema ao explicar que a figura do oponente serve para consolidar identidades e avaliar sistemas de valores, sendo construída inclusive quando não existe de forma evidente.

O uso dessa técnica aparece desde a Roma Antiga, como nos discursos de Cícero contra Catilina, nos quais os correligionários do adversário eram retratados de forma depreciativa. O senador romano descreveu os aliados do o seguinte modo:

“Deitados em seus banquetes, cercados por mulheres impudicas, prostrados pela embriaguez, saciados de iguarias, coroados com guirlandas, banhados em perfumes e exaustos pela devassidão, eles vomitam, em seus discursos ímpios, ameaça de assassinato contra os bons cidadãos e de incêndio contra a cidade. Essa corja vil não passa de um amontoado de jogadores, adúlteros e de tudo o que há de impuro e impudico.”

Evolução da figura do oponente

Ao longo dos séculos, diferentes grupos assumiram o papel de ameaça fabricada, desde minorias perseguidas até figuras como a feiticeira na modernidade ou imigrantes ilegais no contexto europeu atual. O processo envolve sempre a associação do opositor a traços de corrupção moral ou física.

A necessidade de oposições definidas permanece enraizada nas sociedades, mesmo quando direcionada a forças abstratas. Sobre essa inevitabilidade, Umberto Eco concluiu:

“Parece ser impossível prescindir do inimigo. A figura do inimigo não pode ser eliminada pelos processos de civilização. Essa necessidade é inata, mesmo no homem pacífico e amante da paz. Só que, nesses casos, desloca-se a imagem do inimigo: de um ser humano para um força natural ou superior que, em maior ou menor grau, nos ameaça e precisa ser combatida — seja a exploração capitalista, a fome no mundo ou a poluição ambiental. Mas, ainda que se trate de casos ‘virtuosos’, Brecht nos lembra que o ódio à injustiça também deforma o rosto.”

O alerta final serve para reflexão sobre os limites da cobertura jornalística e o impacto do rancor político na percepção da realidade pelos próprios profissionais da mídia.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *