O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, declarou que autoridades do governo do republicano Donald Trump participaram ativamente das eleições brasileiras. A revelação foi feita durante entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo.
Ingerência externa e redes sociais
Ao ser questionado sobre possíveis ações concretas de interferência de Washington no processo eleitoral, o chanceler apontou o alinhamento político e o uso de ferramentas digitais.
O ministro respondeu: “Olha, tomaram parte, tomaram um lado, fizeram fotografias. Hoje a imprensa está cheia de artigos dizendo que foram manipulados algoritmos em mensagens”.
Avaliação nas urnas
Apesar das críticas, o chefe da diplomacia brasileira pontuou que a avaliação final sobre o grau de intromissão estrangeira cabe estritamente à população. A decisão deve ocorrer por meio do voto na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
O ministro afirmou: “O mais importante é a defesa do sistema brasileiro, é o povo brasileiro. Os brasileiros é que vão mostrar o que querem fazer nas urnas, que modelo estão procurando o que consideram que é interferência, o que é intromissão e o que não é”.
Reação a ameaças contra o Itamaraty
Durante a entrevista, o titular da pasta também avaliou a fala do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), que prometeu uma “faxina” no ministério caso seu irmão vença a disputa presidencial.
Vieira classificou a postura como inaceitável: “É péssimo, né? Primeiro, porque não é a forma de se atuar. Em uma democracia, você não ameaça. Você dialoga, conversa, negocia”.
Crítica a carta de Marco Rubio
O chanceler abordou ainda a correspondência enviada pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a Flávio Bolsonaro. Na mensagem, o representante dos EUA celebrou a proposta de criação de uma equipe de transição integrada com o governo estrangeiro.
O ministro declarou: “Saiu publicado, com nome e sobrenome, na imprensa o que fariam no caso de futura vitória, de estabelecer um comitê para coordenar as posições com os EUA. Eu acho isso péssimo”.
Vieira complementou com base em sua trajetória profissional: “Eu nunca vi isso. Na história das relações diplomáticas, em meus 50 anos de carreira, nenhum país fez esse tipo de coisa. Você faz [transição] entre o governo que deixa e o governo que assume. Você cria uma equipe de transição para que seja passado. Isso é normal em todas as democracias. Agora, com um país estrangeiro, para quê? Para entregar antes do tempo, para se submeter? Isso eu acho que é um péssimo sinal”.
Por fim, ao justificar por que evita rebater diretamente as declarações de Eduardo Bolsonaro, o diplomata concluiu: “Eu tenho mais o que fazer. Eu não o conheço, não sei o que ele fala. Um sujeito que pede terra arrasada, que pede tarifa e tudo mais. A população brasileira tem de decidir onde está o interesse brasileiro: querem fazer a transição e entregar tudo antes [aos EUA]?”.






