O deputado federal Túlio Gadelha (PSD) publicou nas redes sociais um registro em vídeo no qual o governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), relata que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) lhe deu um aviso direto sobre investigações envolvendo Flávio Bolsonaro (PL).
O contexto das declarações de Moro
A gravação divulgada remonta a uma entrevista concedida por Moro ao “Flow Podcast” em janeiro de 2022. Na ocasião, o ex-juiz da operação Lava Jato e ex-ministro da Justiça detalhou bastidores de sua passagem pelo governo federal, período que durou pouco mais de um ano entre 2019 e 2020.
“[…] O pessoal não quer que se combata a corrupção. É aquele filme que nunca acaba. O presidente tem lá a investigação da família dele, a rachadinha, e tem medo de que ela chegue nele. A partir de um determinado momento do mandato, ele começou a agir para enfraquecer o combate à corrupção. […] O 1º elemento que revelou isso foi a questão do Coaf —o órgão de inteligência de combate à lavagem de dinheiro no Brasil. O Coaf estava no Ministério da Justiça, sob a minha alçada. Nós tínhamos melhorado o órgão e aumentado o número de servidores, algo demonstrado numericamente. Então, houve um movimento para tirar o Coaf do Ministério da Justiça e transferi-lo para o Ministério da Economia. Ou seja, o Coaf não podia ficar comigo”, afirmou o ex-ministro.
O caso das rachadinhas e o papel do Coaf
As apurações sobre o suposto esquema de desvio de recursos públicos — conhecido como “rachadinha”, que teria ocorrido durante o mandato de Flávio como deputado estadual na Alerj entre 2007 e 2018 — ganharam forte impulso com relatórios do Coaf de 2018. Os documentos apontaram movimentações atípicas nas contas de Fabrício Queiroz, ex-assessor apontado como operador do esquema.
Em 2020, o senador enfrentou denúncias por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. O processo, contudo, enfrentou obstáculos judiciais, destacando-se uma liminar concedida em julho de 2019 pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, que suspendeu nacionalmente investigações baseadas em dados fiscais e bancários sem autorização judicial prévia.
“Depois, houve uma liminar de um dos ministros do Supremo Tribunal Federal [Toffoli] que beneficiou o filho do presidente e parou a investigação contra ele. O problema é que essa liminar paralisava todas as investigações de lavagem de dinheiro no país. O presidente não queria que a gente mexesse nisso e me disse: ‘Moro, se você não vai ajudar, não atrapalhe’. Eu havia dito a ele: ‘presidente, eu entendo a investigação sobre o seu filho, mas para o país essa liminar é uma desgraça, pois para tudo’. Ele não queria que eu atuasse no Supremo contra a decisão. Eu não era advogado de ninguém para interferir no processo do filho dele, mas quando uma decisão judicial afeta todo o sistema, o Ministério da Justiça precisa atuar“, afirmou Moro.
Cenário político atual e alianças
Apesar do histórico de atritos revelado nas entrevistas, Sergio Moro permanece filiado ao PL — mesma legenda da família Bolsonaro e de Flávio — e declarou apoio político ao senador na corrida presidencial de 2026.
No segundo turno do pleito, marcado para 25 de outubro, Flávio Bolsonaro disputa contra o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que havia sido condenado por Moro em 2018 no âmbito da Lava Jato, com as sentenças posteriormente anuladas em 2021.






