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Homem vive há três anos na entrada da mansão mais cara de Londres

O sem-teto que vive na entrada de uma megamansão abandonada em Londres

Em uma das regiões mais nobres de Londres, turística e vizinha ao Palácio de Buckingham, uma fachada imponente chama a atenção de quem passa por Knightsbridge. Diferente dos pontos tradicionais da capital britânica, o local abriga uma curiosa estrutura formada por plantas, guarda-sóis, brinquedos infantis e sacolas de compras, montada exatamente na entrada principal de um dos edifícios mais caros do mundo.

De ex-profissional de tecnologia a morador de rua

O responsável por essa moradia improvisada é Anders Fernstedt, um sueco que reside no pórtico há mais de três anos. Criado na Suécia e com passagens profissionais pelos Estados Unidos no setor de tecnologia, ele se mudou para o Reino Unido em 2016. Na terra da rainha, atuou como jornalista e verificador de fatos em publicações como a revista The Economist, até ver as oportunidades minguarem com a chegada da pandemia de covid-19.

Após o esgotamento de suas reservas financeiras e passagens por abrigos temporários marcados por violência e dependências químicas, Fernstedt encontrou o grandioso edifício e decidiu se estabelecer ali. “Pensei apenas que seria um abrigo para passar a noite. Sou um entusiasta de acampamentos, quase um botânico amador. Não tenho medo da natureza”, contou ele à DW.

O limbo jurídico da megamansão

O refúgio de Anders fica localizado na propriedade situada no número 2-8A de Rutland Gate. O imóvel foi comercializado em 2020 por impressionantes 210 milhões de libras (cerca de R$ 1,4 bilhão), estabelecendo um recorde na época. O comprador foi Hui Ka Yan, fundador do conglomerado chinês Evergrande. Condenado à prisão perpétua, o empresário nunca habitou o espaço, e a mansão de 45 cômodos, piscina coberta e 116 janelas acabou registrada em nome de sua esposa. Com o congelamento dos bens dela, a mansão entrou em um limbo jurídico, impedindo ações de liquidantes.

Enquanto o casarão permanece deteriorado, Fernstedt adaptou o espaço externo com colchões e roupas de cama, garantindo que não sofre com as variações climáticas. “Não tenho uma noite de sono ruim desde que me entendo por gente. E isso vale para as quatro estações. Não faz frio no inverno e, como não tenho paredes, aproveito a brisa durante o calor”, disse ele.

“A ideia que eu tinha, quando comecei, era uma espécie de sonho fictício. ‘Ah, sou apenas um garoto, meus pais estão na casa, está tudo normal; só pedi permissão a eles para acampar na varanda’.”

“Talvez, neste mundo contemporâneo, o aspecto mais curioso do meu estilo de vida seja o fato de eu viver completamente à margem do dinheiro”, afirmou.

Apoio da comunidade e integração no bairro nobre

Para sobreviver, o sueco cultiva uma rede de apoio com comércios locais, obtendo alimentos não vendidos, flores e energia elétrica, além de utilizar instituições de caridade na região de Victoria para banhos e socialização. A presença de brinquedos na entrada faz parte de uma estratégia calculada para conquistar a simpatia das famílias vizinhas.

“Este é um bairro muito sofisticado. Depois de algumas semanas, percebi que todos sabiam da minha presença ali. E pensei: ‘Como posso, de certa forma, sinalizar que estou aqui, sem estar presente de fato?'” “E pensava: meu ‘eleitorado’ precisa ser os filhos e netos dos meus vizinhos. Porque, se eles defenderem a minha causa à mesa de jantar, minhas chances melhoram”, explicou.

“É, de certa forma, como a coleção de nozes de um esquilo”, acrescentou, ao ser questionado se não se preocupa em deixar seus pertences expostos ao ar livre. “Tenho tantas ‘nozes’ que nem vou notar se algo desaparecer.”

Embora alguns moradores locais reprovem a situação, muitos consideram que a presença dele ajuda a afastar criminosos e vândalos. “Às vezes, as pessoas se aproximam perguntando do que eu preciso ou o que eu gostaria. Minha resposta padrão é: ‘Bem, o que vocês acabaram de me dar: um pouco de normalidade, não é? E uma conversa amigável entre vizinhos'”, relatou.

Crise habitacional em Londres

A situação de Fernstedt contrasta com a realidade de milhares de pessoas na capital britânica. Estimativas da entidade Crisis apontam a existência de mais de 200 mil pessoas em situação de rua em Londres. Dados oficiais indicam que, entre abril e junho, “4.392 pessoas foram registradas dormindo nas ruas de Londres – um aumento de 4% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 58% na comparação com dez anos atrás”. Em contrapartida, o governo registrou 105.138 imóveis vazios na cidade em 2025.

Mesmo ciente de que a mansão avaliada em centenas de milhões de libras pode voltar a ser ocupada ou comercializada a qualquer momento, o ex-jornalista valoriza a estabilidade conquistada após anos de incertezas.

“Já não me preocupo tanto com a possibilidade de, ao virar a esquina, descobrir que tudo desapareceu. Como estou aqui há muito tempo, já não vivo mais com essa preocupação; afinal, se a gente se preocupa demais, não consegue ser feliz.”

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