Uma onda de manifestações tomou conta de diferentes regiões da França ao longo do fim de semana, reunindo cerca de 500 mil pessoas nas ruas e resultando na decretação de toque de recolher em cidades como Paris, Lille e Nice. O cenário de caos urbano levou autoridades a mobilizarem dezenas de milhares de agentes de segurança para tentar conter episódios de vandalismo e depredação.
A origem da crise social O movimento teve início em setembro, quando alunos bloquearam o acesso a uma escola na região metropolitana de Paris para cobrar mais investimentos na instituição. Pouco tempo depois, estudantes de outras unidades aderiram ao movimento, transformando a mobilização em pautas por melhorias na infraestrutura escolar, ampliação do corpo docente e salas de aula menos lotadas.
Esse descontentamento estudantil ocorreu paralelamente à forte rejeição popular contra a gestão do presidente Emmanuel Macron, especialmente devido à proposta orçamentária que prevê o congelamento salarial de servidores públicos. O cenário atraiu professores, funcionários públicos e cidadãos comuns, transformando reivindicações educacionais em um protesto generalizado contra o custo de vida e a qualidade dos serviços públicos.
Conexão com os Coletes Amarelos e violência urbana Especialistas apontam que a insatisfação encontrou terreno fértil em grupos que já planejavam atos contra a carestia. O cientista político Thomás Zicman de Barros, professor e pesquisador da Sciences Po Paris, destaca a retomada do espírito de mobilização visto nos Coletes Amarelos a partir de 2018.
Segundo ele, no início de setembro, antes do início dos protestos estudantis, grupos ligados aos Coletes Amarelos já organizavam atos contra o aumento do custo de vida para o dia 17 de outubro.
“Há uma sensação de perda de poder de compra e esse pessoal falou: ‘A gente precisa ir para a rua contra a vida cara’”, afirma.
Barros também ressalta que a ausência de uma liderança centralizada confere um caráter imprevisível e descentralizado aos atos, dificultando a atuação policial.
“Estas manifestações não são inéditas. Nos Coletes Amarelos, já havia um pouco dessa dinâmica. Mas são difíceis de controlar porque não são organizadas por estruturas centralizadas. Eles têm uma dimensão espontânea, que aqui na França eles chamam de selvagem.”
Destruição no comércio e resposta do governo O impacto econômico foi severo, com quase 3 mil estabelecimentos comerciais afetados. Em Paris, locais como a boutique da Dior e vitrines de grifes como Rolex, Louis Vuitton e Gucci sofreram danos. Em Marselha, a loja oficial do Olympique de Marseille foi saqueada, assim como a filial das Galerias Lafayette em Bordeaux.
Para conter os tumultos, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, mobilizou 60 mil policiais no sábado. No entanto, o efetivo não evitou um saldo de aproximadamente 2.400 prisões, quase mil policiais feridos e a morte de um manifestante por parada cardíaca.
Na esfera política, a resposta oficial veio acompanhada de forte tensão. O presidente Emmanuel Macron declarou em rede nacional que “nada justifica” a violência “desenfreada”. Em paralelo, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu atribuiu a responsabilidade dos atos à extrema esquerda, acusando o partido França Insubmissa de arquitetar a agitação para influenciar as eleições de 2027.
O líder da legenda, Jean-Luc Mélenchon, exigiu retratação pública. “Caso contrário, ele deveria se desculpar, ficar em silêncio e parar de atiçar as chamas da agitação”, disse em entrevista.
Para finalizar, Thomás Zicman de Barros adverte que focar estritamente na segurança pública impede o entendimento das causas profundas da revolta popular.
“Ao tratar das manifestações apenas como um caso de polícia, o governo não consegue entender o que está por trás disso, que é uma insatisfação”, afirma.






