A recuperação da autoimagem após o tratamento oncológico ganhou uma nova aliada com o desenvolvimento de uma prótese externa de silicone projetada para reconstituir o relevo do mamilo e o desenho da aréola. O acessório surge como um recurso não invasivo para atender quem passou por intervenções cirúrgicas nas mamas e busca recuperar a sensação de completude física sem precisar se submeter imediatamente a novos procedimentos cirúrgicos.
Impacto direto no espelho e na rotina
A perda do complexo areolopapilar costuma deixar marcas emocionais profundas. Aos 59 anos, Cristina enfrentou o diagnóstico da doença em outubro de 2020 e precisou retirar um trecho da mama esquerda, incluindo o mamilo. A mudança corporal abalou sua percepção individual: “Eu me senti mutilada”, relembra.
Além da ausência da estrutura, a intervenção deixou uma cavidade na região que gerava incômodo estético. A virada ocorreu em abril de 2022, quando ela conheceu o acessório de silicone e passou a integrá-lo ao cotidiano. “Para essa parte da autoestima, do corpo, me incomodava a falta de simetria”, explica a paciente, ressaltando: “É um jeito de restaurar”.
Após um novo tumor, Cristina foi submetida a uma mastectomia bilateral com reconstrução. Embora a mama direita tenha preservado a anatomia original, ela optou por aplicar as peças em ambos os lados para harmonizar o contorno sob os tecidos. “Melhora muito, porque a gente está se vendo, se vestindo. Além de fazer o papel do mamilo, ele cobria a cicatriz que era feia”, relata. Na avaliação dela, o volume faz diferença no dia a dia: “A tatuagem é bacana pra quem vê de frente, para os outros, mas a gente que vê de cima, é melhor o aspecto 3D que a prótese dá”.
Tecnologia desenvolvida no Sul
Produzida pela Power Nipples, a tecnologia foi idealizada no Rio Grande do Sul pela cirurgiã-dentista Ana Choer, profissional com especialização em prótese bucomaxilofacial — disciplina médica voltada à reconstituição de estruturas faciais como olhos, orelhas e nariz comprometidos por traumas ou tumores.
O pontapé inicial surgiu a partir do relato de uma paciente que usava um modelo adquirido pela internet, cuja cavidade interna cedia diante da pressão do sutiã. “Ela me falou: ‘Doutora, quando eu ponho a minha roupa, o meu mamilo natural fica com o bico marcando e esse aqui afunda’. Pensei: ‘que frustração'”, detalha Ana.
Diante do problema, a dentista traçou desenhos manuais e estruturou um projeto técnico em parceria com designers da área médica. O objetivo foi criar uma estrutura resistente à compressão mecânica, fabricada em silicone de grau médico com acabamento tridimensional. O material foi submetido a rigorosos testes contra suor e radiação ultravioleta.
A ligação de Ana com o projeto também carrega laços afetivos. “A minha avó materna teve [câncer de mama] e eu passei a minha infância inteira enxergando ela com um buraco na mama e sem entender. […] Reconstruir e restaurar é a minha missão de vida”, afirma. A recepção inicial foi imediata: “As entregas eram simplesmente emocionantes”, afirma a cirurgiã. “Eu falei: ‘O trabalho é lindo. Isso aqui, para uma mulher, deve fazer muita diferença'”.
Fixação prática e resistência à água
Com valor fixado em R$ 150 o par reutilizável, o item foi desenhado em tamanho único baseado na biometria de mulheres brasileiras, oferecido em três cores: clara, média e cacau. O método de colocação elimina o uso de colas ou substâncias adesivas durante a rotina padrão: basta posicionar a peça sobre a pele higienizada, pressionar por 10 segundos e vestir a roupa habitual.
A aderência foi comparada por Cristina a um sistema de sucção natural. “Fiz uns testes no banho e não cai. Dá pra ficar normal, não precisa ficar tirando e cuidando pra não cair”, confirma a usuária. Conforme a fabricante, a durabilidade foi avaliada em contato com cloro e água salgada, sendo permitida a utilização de fixadores extras apenas em condições de maior atrito, como banhos de mar.
A cirurgiã-dentista reforça que o acessório não se coloca como um substituto absoluto da reconstrução plástica ou da dermopigmentação. “Ela pode ser tanto provisória, enquanto a mulher se organiza e pensa, quanto definitiva”, conclui a especialista.
A iniciativa ganha relevância no contexto de conscientização do Outubro Rosa e do Dia Mundial de Combate ao Câncer de Mama, lembrado em 19 de outubro. Em fase de remissão clínica e em acompanhamento medicamentoso contínuo até 2028, Cristina sintetiza o impacto dos cuidados preventivos: “Às vezes eu até esqueço que estou doente. A gente passa a viver assim como se estivesse curada. Então, o Outubro Rosa só faz a gente se lembrar que precisa desse cuidado”.





