Enquanto o mercado corporativo debate as repercussões da proposta que extingue o modelo 6×1, um meio de hospedagem localizado na Zona Sul de Ribeirão Preto decidiu aplicar a jornada com duas folgas semanais antes mesmo da validação legislativa. A transição, consolidada no início do ano, demonstra que a reorganização interna viabilizou a manutenção dos serviços sem prejuízos ao fluxo de hóspedes.
Planejamento financeiro e agilidade em contratações
A implantação do sistema 5×2 teve início em dezembro do ano anterior no setor de governança e alcançou todas as áreas do estabelecimento em 1º de janeiro. Para absorver a mudança sem desfalcar os turnos, a administração realizou análises orçamentárias detalhadas e ampliou o quadro de colaboradores.
A gestora de pessoas Jéssica Maximiano explica que a empresa mapeou as necessidades com antecedência: “Nós não tivemos impacto operacional. Nós tivemos um estudo antes de começar, tanto financeiro quanto de pessoas, e nós conseguimos suprir tudo isso para que a gente chegasse ao que é ideal”.
Segundo a gestora, a antecipação trouxe vantagens competitivas diretas ao ambiente de trabalho: “A gente já sabia que era inevitável, já vinham os estudos do próprio governo de implantar, então a gente já saiu na frente. O funcionário mais satisfeito reduz a exaustão, trabalha com mais saúde e trabalha mais feliz”.
Ela ressalta que o recrutamento também se tornou mais dinâmico: “O hotel começou a funcionar em escala 5×2 a partir de 1º de janeiro deste ano e nós conseguimos fechar as vagas em aberto com mais rapidez.”
Qualidade de vida e rotina dos funcionários
Os efeitos da escala são sentidos diretamente no cotidiano operacional. A camareira Edinalva Bernardo destaca a diferença no aproveitamento do tempo livre: “Ficou melhor agora. No segundo dia a gente procura descansar, passear, curtir os netos, marido”.
Para Edinalva, a mudança na legislação se reflete na energia dedicada ao serviço diário: “Motivação de vida mesmo. Que a gente tenha mais o tempo para ficar com a família, se divertir, porque precisamos, voltamos a trabalhar mais contentes, mais descansados”.
A avaliação é compartilhada pela analista de RH Tayara Beraldo, que reforça o papel do descanso na prevenção do esgotamento e na diminuição do absenteísmo: “Acredito que ter essa folga a mais aí para as pessoas não é só sobre dinheiro, é sobre ter uma qualidade de vida para resolver alguma coisa num dia que ela precisa”.
Tayara complementa que o dia adicional possibilita cuidar da saúde integral: “Dá para a gente fazer um monte de coisa, e às vezes até ir s algum médico que você deixou por muito tempo e acaba não deixando de se cuidar”.
Tramitação da PEC e fases de transição
Aprovada recentemente no plenário do Senado, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) encerra o formato 6×1, fixa o repouso semanal remunerado em dois dias e institui a redução do limite semanal de 44 para 40 horas, mantendo a remuneração integral. A matéria ainda depende de promulgação pela Mesa do Congresso Nacional e publicação no Diário Oficial.
O texto estipula um escalonamento em duas etapas:
Na fase inicial, com vigência 60 dias após a promulgação, a carga horária passa a ser de 42 horas semanais, assegurando o direito a dois descansos. Após 12 meses do primeiro estágio, entra em vigor o limite definitivo de 40 horas semanais.
Embora entidades de comércio e serviços manifestem apreensão com a rapidez da tramitação — alertando para custos extras a micro e pequenas empresas e risco de repasse ao consumidor final —, o setor jurídico acompanha os desdobramentos operacionais.
O advogado trabalhista Marcelo Braghini pontua os detalhes que ainda demandarão alinhamento: “O que precisa ser definido ainda por regulamentação é como serão concedidas as folgas. A legislação ou a Constituição aqui, ela fala em uma das folgas preferencialmente ao domingo. Mas haverá necessidade de regulamentação ou negociação coletiva para que essas folgas possam ser concedidas”.
No hotel de Ribeirão Preto, a nova regulamentação já mobiliza a equipe técnica. Jéssica Maximiano confirma que os ajustes estão em andamento: “O estudo já começou a ser feito junto com o nosso jurídico, para que a gente veja como a gente vai reduzir as primeiras duas horas e como a gente vai reduzir no total as quatro horas.”






