Meia década após se tornar o primeiro território do planeta a conceder status de moeda corrente ao bitcoin, El Salvador viu sua ousada aposta econômica encolher. Hoje, o dólar norte-americano reina novamente como a única divisa soberana incontestável no país, o comércio não é mais obrigado a aceitar o ativo digital e planos faraônicos — como a idealização de uma metrópole futurista erguida na base de um vulcão — permanecem estagnados.
O revés nas metas de inclusão e circulação
Em setembro de 2021, o presidente Nayib Bukele oficializou a medida com o argumento de atrair capitais internacionais, bancarizar a expressiva parcela informal da população e baratear as remessas financeiras enviadas por imigrantes salvadorenhos, que chegaram a representar 26,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Na época do lançamento, o chefe de Estado afirmou: Em El Salvador, estamos começando a criar um país para o futuro, preservando o que nos torna únicos e buscando inspiração nas melhores ideias que já surgiram no mundo ao longo da história. E acredito que o bitcoin possa ser uma delas.
Apesar de o poder público ter criado um fundo de US$ 150 milhões, investido outros US$ 50 milhões em infraestrutura de caixas eletrônicos e distribuído um incentivo inicial de US$ 30 aos cidadãos que baixassem o aplicativo governamental Chivo, a adesão popular não decolou. Estudos acadêmicos apontaram abandono massivo da plataforma logo após o resgate do crédito governamental. Em pesquisa do Instituto Universitário de Opinião Pública (Iudop) divulgada em janeiro de 2025, 91,8% dos salvadorenhos declararam não ter utilizado o token no ano anterior, sendo que 76,2% afirmaram jamais tê-lo operado.
Para o economista Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central de Reserva de El Salvador, a iniciativa não atingiu seu propósito central. Se considerarmos os motivos apresentados por Bukele para adotar o bitcoin, não há dúvida de que o projeto fracassou, pontuou. O especialista complementou: É evidente que o governo esperava que, a esta altura, toda a população estivesse usando bitcoin. A aprovação da lei, a criação do fundo fiduciário, toda a estrutura foi pensada para isso, embora pesquisas anteriores já mostrassem que a população desconfiava muito dessa experiência, concluindo que, nesse sentido, de fato, não deu certo.
O próprio presidente reconheceu que a iniciativa não teve a adesão que esperávamos, em entrevista concedida em 2024.
Remessas internacionais e o impacto econômico real
A expectativa de baratear o repasse de recursos da comunidade no exterior também esbarrou em entraves culturais. Entre janeiro e abril de 2026, mesmo com alta nas operações via carteiras digitais somando US$ 23,1 milhões, essa fatia respondeu por irrisórios 0,7% do total de US$ 3,286 bilhões recebidos no período. Canais tradicionais continuam dominando porque grande parte dos trabalhadores nos Estados Unidos envia cédulas e as famílias no país centro-americano necessitam do papel-moeda físico para suas despesas diárias.
Frank Muci, pesquisador da London School of Economics and Political Science (LSE), avaliou que o plano econômico desenhado por Bukele foi uma medida que rendeu centenas de manchetes, se não milhares, mas que, no fundo, não teve resultado algum. O pesquisador ressalta que o aumento recente no turismo se deve muito mais à queda drástica na violência urbana promovida pelo governo do que à agenda das criptomoedas.
O acordo com o FMI e a reestruturação da lei
Pressionado por desequilíbrios orçamentários, o governo salvadorenho selou, em dezembro de 2024, um financiamento de US$ 1,4 bilhão junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Em contrapartida, o órgão multilateral exigiu a atenuação dos riscos fiscais atrelados ao ativo.
Como consequência direta do acordo, o parlamento reformou a legislação: o bitcoin perdeu o status de curso forçado e a aceitação por parte de empresas e prestadores de serviço passou a ser estritamente voluntária. Adicionalmente, a gestão da carteira virtual estatal Chivo foi repassada para a iniciativa privada, sob o comando da empresa Linguard Labs, embora o governo preserve uma cota minoritária no negócio.
Patrimônio público e projetos paralisados
Em paralelo às oscilações de mercado, o Estado manteve posições em criptoativos. Até o início de outubro, o país detinha 7.798,37 unidades de bitcoin sob custódia, somando aproximadamente US$ 636 milhões, conforme dados do Escritório Nacional do Bitcoin. O ex-presidente do Banco Central Carlos Acevedo observou que, ao menos, não houve perda de dinheiro, explicando que embora o investimento não tenha dado o retorno esperado pelo governo, sua rentabilidade também não ficou muito distante da que poderia ter sido obtida no mercado se o dinheiro tivesse sido aplicado em outro ativo.
Por outro lado, o lançamento dos títulos públicos atrelados à dívida em bitcoin — batizados de “títulos vulcão” — e a construção da megalópole Bitcoin City, projetada para funcionar com energia geotérmica do vulcão Conchagua, nunca se materializaram.
Mesmo com o recuo institucional, apoiadores do setor enxergam ganhos na imagem do país. Samson Mow, diretor-executivo da empresa de infraestrutura JAN3, destacou as lições da política salvadorenha ao avaliar a velocidade de aceitação desse modelo: Mesmo quando um governo concentra muito poder, não consegue obrigar a população a adotar uma moeda, resumiu o executivo.






