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Criança supera obesidade e inspira colegas no crossfit

Menina com obesidade muda hábitos com a família e leva seis colegas de sala para o crossfit em Ribeirão Preto, SP

A transformação na rotina de Rafaela Nogueira, de 10 anos, começou dentro do próprio lar e acabou transbordando para o ambiente escolar em Ribeirão Preto (SP). Após realizar uma aula experimental de crossfit voltada para o público infantil há cerca de dois meses, a garota incentivou seis colegas de classe a aderirem à modalidade física.

“Quando eles fizeram a aula experimental, eles gostaram bastante. Falaram com os pais, os pais autorizaram e eles começaram a fazer”, conta Rafa.

Exemplo em família e transformação no prato

A batalha de Rafa contra o ganho excessivo de peso teve início aos 3 anos, época em que precisou utilizar corticoides durante um ano para tratar um problema respiratório. A medicação ampliou o apetite da menina, cenário potencializado pelo consumo constante de lanches, pizzas e esfirras em substituição ao jantar — em parte impulsionado por parcerias comerciais da garota, que atua nas redes sociais.

O sinal de alerta definitivo surgiu aos 8 anos, em uma ida às compras na qual nenhuma peça serviu na jovem. A mãe, Jessica Nogueira, de 37 anos, compreendeu que o processo precisava do comprometimento de todos sob o mesmo teto.

“A casa inteira mudou”, diz Jessica, que também estava acima do peso. Hoje, ela prepara marmitas com a quantidade certa para a semana. Rafa come mais frutas, mas ainda não gosta de alface, tomate e couve. “Muitas coisas, mas eu me esforço”, diz Rafa.

“A gente tem que ser exemplo. A criança não faz com cobrança. Ela te imita, ela faz o que você faz”, afirma a mãe.

Com treinos diários e sem uso de remédios ou intervenções cirúrgicas, a garota reduziu 14 centímetros de circunferência abdominal no total, deixando de lado o receio da balança.

“Agora ela não tem medo de sair pra comprar uma roupa”, diz Jessica. Perguntada se se sente melhor, Rafa responde: “Muito melhor.”

Tratamento especializado e dança na infância

A conscientização em conjunto também transformou o cotidiano de Thalia Leme de Oliveira, de 9 anos. Sua mãe, Rosana de Andrade Leme, reestruturou a própria alimentação ao receber o diagnóstico de diabetes gestacional, conseguindo eliminar 30 quilos. Ao notar alterações no colesterol da filha em exames de rotina, a conduta foi estendida à menina.

Thalia começou a praticar dança de rua diariamente e recebe acompanhamento multidisciplinar no Núcleo de Obesidade Infantil (Nobin). Refrigerantes e guloseimas tornaram-se raridades na mesa.

“A gente não tirou a comida dela. Ela foi tirando aos poucos”, diz Rosana.

A evolução motivou a menina a se dedicar às consultas e ensaios teatrais. “Meu Deus, é outra menina”, resume Rosana. A própria Thalia lembra: “As minhas roupas ficavam muito grudadas, às vezes nem serviam”.

O suporte do serviço público e os gargalos de adesão

O Nobin iniciou suas atividades em dezembro de 2025 para receber casos moderados a graves encaminhados da rede pública de saúde. O espaço reúne nutricionistas, psicóloga, médico nutrólogo e educador físico em atendimentos às quartas-feiras.

“Não tem como contemplar todas as dimensões do tratamento com um único profissional”, afirma a nutricionista Gisele, que integra a equipe. Segundo ela, 61 pacientes passaram pela equipe desde a inauguração.

Apesar da infraestrutura, 54% dos agendamentos efetuados entre janeiro e setembro de 2026 terminaram em faltas, totalizando 161 ausências em 297 horários marcados. Os retornos registraram índice de 60% de abandono momentâneo.

“Obesidade é uma doença grave, crônica, multifatorial, de difícil tratamento”, diz Gisele.

Barreiras estruturais como valor da condução coletiva, incompatibilidade de horário escolar e acúmulo de tarefas das responsáveis interferem diretamente na manutenção dos cuidados terapêuticos.

Panorama epidemiológico e diretrizes de combate

Os índices de excesso de peso avançaram de forma expressiva nas últimas décadas em Ribeirão Preto. Informações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) indicam que o percentual de adolescentes de 10 a 19 anos com sobrepeso ou obesidade saltou de 22,8% em 2008 para 39,3% até setembro de 2026. Em 2025, o registro era de 37,9% no município, diante de 38,4% no estado paulista e 33,4% na média nacional.

Frente a essa realidade global — que soma mais de 400 milhões de jovens com peso além do adequado em todo o planeta —, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou recomendações que priorizam reeducação dos hábitos para menores de 10 anos, desaconselhando procedimentos cirúrgicos ou medicamentos nessa faixa de idade.

O endocrinologista pediátrico Thiago Hirose aponta que o crescimento das estatísticas “é uma tendência geral, não apenas de Ribeirão Preto, mas também de outras localidades”. O médico analisa que fatores como confinamento no período da pandemia e comportamentos sedentários recentes aceleraram os diagnósticos em faixas etárias cada vez mais precoces.

“As crianças estão dormindo menos, ficando mais tempo em casa, passando mais horas diante das telas e consumindo mais alimentos ultraprocessados, muitas vezes enquanto assistem à televisão.”

O especialista alerta para o perigo do desenvolvimento de problemas graves decorrentes do quadro, tais como resistência insulínica, alterações hepáticas e perturbações no sono, orientando que pais adotem diálogo sem cobranças estéticas e estimulem práticas ativas dentro de casa.

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