Historicamente, os antigos navegadores do rio São Francisco costumavam posicionar esculturas de madeira na proa das embarcações com o objetivo de afastar os perigos das águas. Essas figuras mitológicas conhecidas como carrancas possuem uma característica marcante: mantêm o olhar fixo exclusivamente para a frente, ignorando por completo o interior da própria embarcação. Essa dinâmica histórica serviu de metáfora para analisar a reação recente dos comentaristas de um dos principais canais de notícias do país diante de um escândalo envolvendo a própria empresa.
O caso Dark Horse e as reações da imprensa Quando vieram a público as mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme, as carrancas entraram em cena. Octavio Guedes decretou que aquilo era “tomação de grana” em “dialeto de malandragem”. Natuza Nery, após a sabatina do senador no Jornal Nacional, sentenciou que ele “enrolou demais, mentiu bastante”. Andréia Sadi, ao vivo, corrigia o advogado da produtora com a solenidade de quem administra um sacramento.
A queda de Frederic Kachar O cenário mudou radicalmente quando a cúpula da emissora desligou Frederic Kachar, que ocupava o cargo de diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio. A decisão ocorreu após a divulgação de diálogos entre o executivo e o mesmo banqueiro investigado. Segundo apuração jornalística, o dirigente participou de eventos restritos, trocou mensagens com conteúdo impróprio sobre atrizes da casa e, ao receber reclamações sobre uma apuração da jornalista Malu Gaspar, afirmou: “Vou falar com ela”.
Em comunicado oficial, a própria empresa reconheceu publicamente a existência de uma “relação inadequada do executivo com um anunciante”.
A divergência entre os casos políticos e internos Existe uma distinção fundamental entre os episódios envolvendo figuras públicas e os acontecimentos internos da corporação midiática. No primeiro caso, tratava-se de um parlamentar em busca de patrocínio cultural para uma obra audiovisual, procedimento amparado pelas normas de incentivo. No segundo, as conversas indicam a proximidade entre a direção executiva e fontes investigadas pelas equipes de reportagem, levantando questionamentos sobre a independência editorial.
O contraste no tratamento editorial Diante de revelações envolvendo figuras políticas de esquerda, a mesma equipe de comentaristas costuma adotar tom de cautela e ponderação, destacando a necessidade de prudência probatória. Contudo, quando o escândalo atinge os bastidores da própria organização de comunicação, a reação predominante tem sido o silêncio absoluto.
Reflexão final sobre a vigilância da mídia A célebre indagação do poeta romano Juvenal sobre quem vigia os próprios vigilantes permanece atual diante de crises institucionais na imprensa. Ao adotarem uma postura defensiva e omitirem fatos que afetam a própria estrutura, os veículos de comunicação demonstram a mesma lógica das antigas esculturas fluviais: observam apenas o horizonte alheio, enquanto evitam examinar os problemas do próprio barco.






