Uma maratona de resistência física que reuniu cerca de 30 competidores na Avenida Armando de Salles Oliveira, em Piracicaba (SP), virou alvo de inquérito policial e processo administrativo federal. Organizada por uma loja de celulares e uma revendedora de motos elétricas, a disputa terminou com um homem hospitalizado e levantou questionamentos sobre os limites e a legalidade desse tipo de ação promocional.
O evento simulava um reality show ao ar livre e exigia que os concorrentes ficassem em pé, com as mãos coladas à lataria de uma caminhonete. Quem resistisse por mais tempo levaria para casa os itens prometidos, entre eles um iPhone 17. Ao todo, a disputa durou 52 horas contínuas.
Investigação policial e irregularidade federal
A Polícia Civil de São Paulo instaurou um inquérito para averiguar a ocorrência, registrada inicialmente sob a tipificação de “perigo para a vida ou saúde de outrem”, ressaltando a presença de um jovem de 17 anos entre os concorrentes.
Paralelamente, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), ligada ao Ministério da Fazenda, confirmou que a dinâmica não possuía a autorização obrigatória exigida por lei para sorteios, concursos e ações semelhantes voltadas à propaganda comercial. Conforme o órgão, certames de resistência demandam regras estritas para resguardar a integridade dos participantes, tais como presença contínua de socorristas ou Corpo de Bombeiros e duração máxima pré-fixada.
A SPA destacou a finalidade dos protocolos obrigatórios:
“Essas medidas servem como referência para a avaliação das condições de segurança e da integridade física dos participantes”
Por operar sem o aval necessário, as empresas promotoras ficam sujeitas a penalidades administrativas que englobam advertências, veto para novas campanhas pelo prazo de até dois anos e sanção financeira equivalente a até 100% dos prêmios anunciados.
Segundo a Prefeitura de Piracicaba, o comércio possui registro regular de funcionamento, mas apenas protocolou uma autodeclaração de baixo risco autorizada unicamente para o sábado (10), das 10h às 22h, não tendo solicitado licença específica para um evento prolongado na via pública.
Em contrapartida, o organizador da ação e proprietário das empresas, Lucas Barbosa, sustentou que o poder público municipal concedeu licença para instalação temporária por meio de processo administrativo e declarou que segue à disposição para prestar todos os esclarecimentos aos órgãos competentes.
Restrições extremas e hospitalização
Transmissões ao vivo nas redes sociais acompanharam o desenrolar da dinâmica, concebida para gerar entretenimento segundo o próprio lojista. A prova não contava com cronômetro de encerramento nem com socorristas de plantão. Os competidores firmaram um termo de liberação de uso de imagem e isenção de responsabilidade.
As pausas biológicas ocorreram sob critérios restritivos: o grupo teve apenas um intervalo sanitário autorizado — que durou três minutos, após votação coletiva —, além de alimentação e água administradas sob deliberação do organizador, que permaneceu acordado junto aos concorrentes. Ofertas em dinheiro eram feitas aos competidores para convencê-los a abandonar a lataria.
Ao final de mais de dois dias de confinamento urbano, a influenciadora digital Laís Lima foi a vencedora da disputa, superando o vendedor Nilson Sousa, de 25 anos, que precisou ser levado por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para atendimento médico emergencial.
Nilson explicou as razões que o impulsionaram a testar os próprios limites:
“Eu perdi meu pai eu sou o único homem da casa. Minha mãe é diarista. Minha irmã saiu de casa recentemente. Então, eu sempre trabalhei, sempre fui guerreiro e isso me motivou. Isso pode mudar minha vida”
O vendedor relatou os instantes finais na competição:
“Eu fui até o meu limite mesmo […] Eu chamei o Lucas e disse ‘mande me puxar’, porque eu não estava conseguindo tirar a mão do carro […] eu saí, porque eu fui ao meu limite”
Apesar da exaustão, ele recebeu tratamento com soro no posto de saúde e celebrou as doações, tratamentos e prêmios secundários arrecadados com a notoriedade:
“Abriu muito as portas, muita conexão que eu tive com pessoas boas ali. Todo mundo ali saiu feliz, foi algo que mudou a vida. Deus abriu essa oportunidade para mim”
Dificuldades financeiras motivaram permanência
Para muitos dos participantes, as motivações financeiras sobrepuseram o desgaste extremo. O entregador de aplicativo Tadeu Vilela, de 42 anos, participou para tentar consertar o motor da sua ferramenta de trabalho. Ele acabou desclassificado após 38 horas ininterruptas.
“Eu estava muito confiante, mas quando deu 38 horas de prova eu acabei pegando no sono de pé. Foi onde eu larguei uma das mãos”
Tadeu comemorou o apoio popular recebido após a transmissão:
“Graças a Deus, eu gostei muito de ter participado e faria tudo de novo”
Já a cuidadora Laura Neves, que completou 24 horas encostada no veículo com o objetivo de obter recursos para construir o muro de casa, enfatizou o lado desumano da falta de amparo em primeiros socorros:
“A única falha de lá foi não ter deixado uma pessoa enfermeira ali com a gente”
Ela também rebateu as reações negativas que surgiram nas redes sobre os envolvidos:
“As pessoas têm que ter mais empatia. A gente estava ali por um propósito. Mesmo se fosse por experiência ou por zoação, cada um sabe de si, cada um sabe onde seu calo aperta e todo mundo que estava ali estava com um propósito”
A população pode averiguar antecipadamente a conformidade de qualquer concurso comercial, sorteio público ou prova que prometa brindes por intermédio da consulta pública disponível no portal da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.






