A Polícia Civil e a Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo estão apurando duas ocorrências distintas de intervenção policial que resultaram em mortes. Em ambas as situações, os agentes efetuaram dezenas de disparos contra as vítimas e já foram preventivamente afastados de suas funções.
O caso de Gustavo Munis de Santana
O primeiro episódio ocorreu na madrugada de sábado (10) e vitimou Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, que tinha o sonho de ser veterinário. O boletim de ocorrência registra que a corporação foi acionada sob a alegação de que um homem estaria tentando tirar a própria vida com um disparo de arma de fogo.
Ao chegarem ao endereço, os policiais encontraram Gustavo, que fugiu em direção a um ponto mal iluminado em frente a um imóvel. Os agentes relatam que, em certo instante, o jovem emergiu da escuridão e “estendeu os braços, apontando um objeto”. Foi nesse momento que a equipe efetuou 45 tiros, constatando apenas depois que o item empunhado era um telefone celular.
O laudo aponta que Gustavo foi baleado 27 vezes por todo o corpo, sendo quatro delas na região da cabeça. A defesa da família informou que o jovem realizava tratamento contra depressão, negando qualquer histórico de surtos psicóticos ou tentativas anteriores de suicídio, e destacou que ele foi baleado em momento de vulnerabilidade sem possibilidade de defesa. O sepultamento ocorreu nesta segunda-feira.
O caso de Antonio Nunes Batista
A repercussão da morte de Gustavo levou uma testemunha a enviar imagens de outra ação letal ocorrida dez dias antes. O registro mostra Antonio Nunes Batista, apontado pelo boletim de ocorrência como alguém em suposto surto, manipulando uma faca e uma barra de ferro diante de seis policiais militares.
Nas imagens, os agentes utilizam armas de choque (tasers) três vezes. Atingido, o homem cambaleia em direção aos policiais, momento em que os tiros começam. O vídeo evidencia que apenas dois disparos ocorrem antes da queda, mas a guarnição prossegue efetuando outros 22 tiros.
A irmã de Antônio relatou o histórico psiquiátrico do familiar:
“Ele gesticulava, ele falava, ele gritava… é uma pessoa que tem… que tem esquizofrenia. Eles não sabem disso? Não sabem lidar com uma pessoa dessa? A gente tá revoltado, triste mesmo, muito triste”.
Análise de especialistas e posicionamento oficial
Especialistas em segurança pública apontam que o volume de tiros nos dois episódios foge completamente aos padrões esperados para intervenções policiais.
Giane Silvestre, representante do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, avaliou a conduta:
“É difícil encontrar uma justificativa técnico-legal para essa quantidade de disparos. O procedimento padrão da polícia militar para a abordagem, ele prevê um uso progressivo da força, o que significa usar de menos força para aumentar a força conforme a gravidade da situação”.
A especialista também ressaltou a importância da transparência nas apurações:
“É fundamental o uso das imagens produzidas pelas câmeras dos policiais para a investigação do fato ocorrido nas regiões dessa abordagem”.
Por meio de nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que os armamentos dos policiais envolvidos foram recolhidos e que as gravações das câmeras corporais passarão por perícia. A pasta reiterou que não tolera desvios funcionais e conduz rigorosas investigações para esclarecer os fatos em ambos os casos.






