O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, que cumpre prisão preventiva e responde por feminicídio e fraude processual, usou seu depoimento à Justiça de São Paulo para atacar a memória da esposa, a soldado Gisele Alves. Durante a oitiva realizada em 5 de outubro, o réu tentou convencer que a companheira sofria de distúrbios psiquiátricos, agia com agressividade e quebrava objetos em casa, sustentando a tese de que ela cometeu suicídio em fevereiro deste ano.
Acusações generalizadas e contestação de laudos técnicos Para sustentar a versão de que Gisele tirou a própria vida com um disparo na cabeça no apartamento do casal, o oficial apontou o dedo contra diversos alvos. Ele incriminou os pais da vítima, o ex-marido dela, amigas, colegas de farda, peritos e até uma testemunha protegida. O réu argumentou que é vítima de uma armação para culpá-lo sem provas, enquanto os laudos do Instituto de Criminalística atestam que a tese de suicídio é fisicamente impossível.
Críticas à vestimenta da vítima geram revolta Dias antes do falecimento, conforme relatou o próprio oficial, o casal discutiu e ele desaprovou a escolha de vestimentas da esposa, acusando-a de tentar provocar entregadores que estavam na rua.
“Ela estava com o vestido marrom (…) na frente do prédio. Ela está com o vestido marrom tubinho, se ela respirasse, o vestido rasgava. Bem decotado, diga-se de passagem, bem curto. Uns dois palmos acima do joelho”, declarou o acusado sobre a companheira.
Em outro trecho, ele detalhou a dinâmica daquela noite:
“Ela falou, ah, vou descer lá pegar um lanche lá embaixo. Mas ela fez de propósito, a meu ver. Ela pegou aquele microvestido que ela tinha na época que ela era magrinha e vestiu com o corpão. Então o vestido ficou bem curto, bem justo e bem decotado.”
“Por volta das 21h, à frente do prédio, tem tipo dez, 12 motoboys. Pessoal que vai entregar pizza, lanche. Cheio de homem na porta do prédio. ‘Vou descer lá’. Daí pegou a [filha] e desceu”, afirmou.
Defesa da família rebate postura do réu O advogado José Miguel da Silva Júnior, representante legal dos parentes da vítima, repudiou veementemente a tentativa do réu de manchar a honra da policial militar e rotulá-la de forma pejorativa para justificar o crime.
“Um outro ponto que também ele faltou com a verdade, com o cotidiano dele, é quando ele disse que a Gisele colocou um vestido curto e desceu para se exibir para os motoboys. Quando não é verdade, a Gisele desceu com um vestido nada curto, estava com a sua filha e não foi se exibir para os motoboys e foi sim conversar com seus pais, que ela havia chamado para levá-la embora. Então, ele realmente tenta a todo instante macular a memória da Gisele”, pontuou o defensor.
O assistente de acusação também lamentou o tom misógino adotado pelo tenente-coronel:
“E ele também trata a Gisele, infelizmente, como uma mulher vulgar. Isso foi muito pesado, muito constrangedor. Ele não respeita a memória da Gisele e não respeita os familiares da Gisele também”, completou.
“Foi uma atitude reprovável. Ele coloca a Gisele como uma pessoa desequilibrada, uma pessoa agressiva, que estava fazendo uso de substâncias em função do treinamento”, reforçou o advogado.
Medidas jurídicas e administrativas exigidas pelo ministério público Diante das declarações ofensivas proferidas na audiência, a promotora Ingrid Bertolino Braido solicitou que todas as pessoas citadas sejam formalmente informadas para que possam avaliar medidas judiciais por danos morais, injúria, calúnia ou difamação. O órgão ministerial também pediu que a Corregedoria da PM investigue os ataques desferidos contra superiores da corporação.
A Justiça paulista agora analisa os pedidos da acusação e agu combinação de manifestações antes de definir se o réu será submetido a julgamento perante o Tribunal do Júri.






