Milhares de imigrantes que vivem legalmente em território norte-americano perderam o acesso ao Medicaid, programa público voltado para cidadãos de baixa renda, após a implementação de novas diretrizes federais no início de outubro.
Impacto dramático na vida de famílias imigrantes
Entre as populações afetadas estão refugiados, requerentes de asilo e vítimas de violência doméstica e de tráfico humano. Grande parte dessas pessoas trabalha, paga tributos e depende do suporte estatal para arcar com consultas, remédios e terapias contínuas.
Dados da organização de pesquisas KFF apontam que mais de 281 mil imigrantes distribuídos em nove estados e no Distrito de Columbia devem perder o benefício. Somente no Arizona, 29 mil pessoas foram desclassificadas, enquanto na Flórida a expectativa é de que 177 mil indivíduos sejam atingidos pelas restrições.
A situação é crítica para casos como o da família de María Chacon, residente em Tucson, no Arizona. Seu filho Jesus, de 22 anos, ficou incapacitado de respirar por conta própria após um acidente de trânsito sofrido aos 17 anos, necessitando de ventilação mecânica, sonda e remédios diários.
A família imigrou legalmente do México em 2018 amparada por um visto para vítimas de tráfico humano. Até o corte, o programa arcava com cerca de US$ 25 mil mensais para os cuidados do jovem, cujos remédios sozinhos somam US$ 7 mil mensais. O estoque atual deve acabar em meados de outubro.
“Desde aquele dia, não consigo dormir. Não conseguimos comer. Ficamos nos perguntando o que vamos fazer”, relatou María à Associated Press.
Novas regras e restrições de elegibilidade
O Medicaid é mantido conjuntamente pela união e pelos estados, atendendo tradicionalmente gestantes, crianças, idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. Com a nova legislação, o acesso foi limitado a grupos específicos, como detentores de green card e determinados cidadãos de Cuba e do Haiti.
Refugiados e pessoas com pedidos de asilo aprovados, mas sem o green card definitivo, perderam o direito à cobertura federal. Além disso, mesmo quem possui o documento de residência pode enfrentar uma carência de cinco anos.
Para Ben D’Avanzo, estrategista sênior do National Immigration Law Center, parte dos beneficiários só descobrirá o corte ao buscar atendimento. Em contrapartida, a porta-voz da Casa Branca, Lauren Bis, afirmou que os imigrantes devem ser capazes de se sustentar sem recorrer a auxílios financiados por contribuintes.
Steven Camarota, diretor de pesquisas do Center for Immigration Studies, também apoiou o endurecimento das normas, sugerindo que o país priorize critérios como renda e escolaridade na seleção de novos moradores.
Projeções de cortes bilionários e sobrecarga hospitalar
As alterações fazem parte de uma reforma mais ampla sancionada em 2025, que impõe novas exigências trabalhistas e revisões frequentes de cadastro, gerando cortes estimados em US$ 911 bilhões ao longo de uma década.
O Escritório de Orçamento do Congresso calcula que 7,5 milhões de pessoas ficarão sem cobertura até 2034, englobando também cidadãos norte-americanos. Especialistas alertam que a interrupção de tratamentos sobrecarregará os prontos-socorros com casos agravados.
Para Carmen Feliciano, vice-presidente da UnidosUS, problemas simples não tratados precocemente gerarão custos maiores aos estados. Ela ressalta que as entidades comunitárias não darão conta do volume de desassistidos: “Não teremos capacidade para atender a todas as pessoas que precisam”.






