Acordar com a face amortecida e com fortes dores de cabeça levou a fisioterapeuta Jéssica Pasquale, aos 28 anos, diretamente para uma unidade de terapia intensiva (UTI) com suspeita de acidente vascular cerebral (AVC). Após quatro dias internada e uma bateria de exames em São Paulo, o quadro neurológico crítico foi descartado, mas a origem do sofrimento permaneceu sem resposta imediata. A verdadeira causa para o mal-estar que a acompanhava há mais de uma década estava localizada na articulação temporomandibular, caracterizando uma disfunção temporomandibular (DTM).
O que é a DTM e como ela se manifesta
A DTM abrange uma série de alterações que comprometem a articulação temporomandibular (ATM), os músculos mastigatórios e tecidos anexos, incluindo ligamentos, discos articulares, cartilagens e ossos. O distúrbio pode ter origem muscular, articular ou mista, exigindo abordagens terapêuticas personalizadas para cada perfil de paciente.
Embora o bruxismo seja frequentemente apontado como um fator de risco relevante, ele não é sinônimo da disfunção: existem indivíduos com bruxismo que não têm DTM, assim como há casos de DTM sem a presença do hábito de ranger os dentes. Entre as queixas mais recorrentes relatadas nos consultórios estão:
Dores de cabeça constantes, incômodo na região dos olhos, dores na nuca e ombros, zumbido no ouvido, episódios de vertigem, estalos na boca e restrição na movimentação da mandíbula. Em quadros mais complexos, a enfermidade também pode coexistir com condições de dor crônica generalizada, como a fibromialgia.
A ligação perigosa entre dores crônicas e a mandíbula
A complexidade dos sintomas faz com que a disfunção passe despercebida por muito tempo. Uma meta-análise reunindo 11 estudos e 6.365 voluntários indicou que a prevalência de DTM alcança 33,6% da população brasileira avaliada. Paralelamente, uma revisão conduzida pela Unesp de Araraquara, publicada em 2026, apontou uma conexão expressiva com a cefaleia: pessoas com enxaqueca têm aproximadamente seis vezes mais propensão a ter DTM, enquanto quem sofre de DTM tem cerca de 2,6 vezes mais chance de apresentar crises de enxaqueca.
Diante da ausência de um biomarcador laboratorial exclusivo, a identificação do problema depende fundamentalmente de avaliação clínica criteriosa, histórico médico e exames físicos, que podem ser apoiados por tecnologias de imagem e inteligência artificial. A falta de conhecimento adequado, no entanto, frequentemente empurra o paciente para uma rotina exaustiva de automedicação.
De acordo com Simone Carrara, cofundadora da Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SBDOF), a dependência de analgésicos costuma gerar efeitos colaterais severos, incluindo cefaleia por uso excessivo de remédios:
“Já tive pacientes que tomavam mais de 10 analgésicos por dia e uma que engordou mais de 40 quilos durante uma peregrinação a profissionais de saúde, sem o diagnóstico de DTM”, diz.
A especialista também ressalta o perigo de intervenções inadequadas provocadas pela falta de investigação orofacial:
“Muita gente com o problema não sai de casa com medo de cair. Já recebi paciente com mutilação por causa de dor, que não descobriu a DTM e foi tratada como se houvesse problema de canal por trauma”, alerta.
Tratamentos conservadores e recuperação da qualidade de vida
Especialistas reforçam o cuidado contra indicações cirúrgicas precipitadas. Esse cenário por vezes decorre de distorções na assistência à saúde, uma vez que diversas operadoras cobrem procedimentos com cirurgião buco-maxilo-facial, mas não cobrem atendimentos odontológicos convencionais. Ainda assim, até 90% dos casos podem ser solucionados no consultório com condutas conservadoras conduzidas por dentistas especialistas na área, como placas interoclusais sob medida, laserterapia, ultrassom, fisioterapia e infiltrações guiadas.
A experiência vivida por Jéssica Pasquale demonstra a eficácia dos métodos não invasivos. Seu histórico começou aos 14 anos, após uma cirurgia para tracionar um canino preso ao palato, procedimento que deu início a incômodos permanentes. Com a piora gradual, as limitações comprometeram severamente o seu cotidiano:
“Eu tive muitas dores de cabeça, usei medicação para acalmar os nervos e melhorar a dor. Não dormia bem e acordava sempre cansada. Eu abria a boca e doía. E fiquei comendo alimentos mais moles para não fazer muita força. A DTM me limitou muito. Cheguei a parar de trabalhar por três meses”, contou Jéssica.
A reviravolta ocorreu quando uma amiga da área sugeriu a avaliação funcional da mandíbula. Ao longo de um ano de plano terapêutico — combinando placa interoclusal, fisioterapia, exercícios e tecnologia com laser e ultrassom —, a resposta nos três primeiros meses foi suficiente para controlar as crises. Hoje, aos 33 anos, sem enxaquecas e livre de remédios, a fisioterapeuta mantém acompanhamento contínuo e uso de placa noturna, comprovando que, embora não tenha cura definitiva, a DTM pode ser plenamente controlada.






