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EUA planejam retomar execuções públicas com transmissão ao vivo após quase um século

Por que EUA querem retomar execuções públicas após quase um século?

Mais de 90 anos após o último enforcamento público de grande repercussão no país, o governo americano surpreendeu ao anunciar planos para retomar as execuções abertas ao público, desta vez com transmissão ao vivo pela internet.

O precedente histórico de 1936

Para entender o impacto da medida atual, é preciso voltar a 14 de agosto de 1936, em Owensboro, Kentucky. Naquela ocasião, uma multidão estimada em 20 mil pessoas se reuniu para assistir ao enforcamento de Rainey Bethea, um jovem negro condenado pelo assassinato de uma idosa. O evento foi marcado por barracas de pipoca, festas na noite anterior e um forte circo midiático que chocou o país. O escândalo fez com que o governador proibisse execuções públicas meses depois, consolidando a transição para métodos privados que perdura desde então.

O plano atual do Pentágono

Agora, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, determinou que os militares executarão publicamente Nidal Hasan, responsável pela morte de 13 soldados desarmados em 2009 na base militar de Fort Hood, no Texas. A pena por fuzilamento está programada para dezembro e contará com transmissão ao vivo.

“As pessoas precisam entender que esse tipo de coisa tem consequências sérias”, disse Hegseth.

A decisão gerou reações imediatas entre acadêmicos e defensores dos direitos humanos. Michael Radelet, professor emérito da Universidade do Colorado, expressou profunda incredulidade:

“Nunca imaginei outra execução pública”, disse ele à BBC.

Para o estudioso, transformar a punição máxima em espetáculo reduz a justiça a mero entretenimento:

“A justificativa para a pena de morte se torna entretenimento… tragam a pipoca, convidem seus amigos”, afirmou Radelet, destacando que o apoio popular à pena capital tem caído de 80% em 1994 para 52% atualmente.

Repercussão internacional e choque cultural

A novidade também foi repudiada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por autores que estudam o tema. Sonya Lea, cujo livro recente aborda o caso de Bethea, classificou a iniciativa com extrema repulsa:

“O que chamavam disso em 1936 era um carnaval de sadismo”, disse ela. “O fato de agora termos a tecnologia que permite que isso atinja um público muito maior do que as 20 mil pessoas que compareceram… para testemunhar em Owensboro, Kentucky, torna tudo ainda mais horrível.”

A autora acrescentou que muitos descendentes dos espectadores daquela época continuam traumatizados pelas lembranças familiares. Para ela, esse nível de exposição pública coloca os Estados Unidos em um patamar indesejado:

“Eu realmente acreditava, de todo o coração, que tínhamos deixado isso para trás, esse nível de atrocidade que apenas alguns países no mundo praticam – Irã, Coreia do Norte, Afeganistão”, disse ela. “Será que nós, como Estados Unidos da América, nos consideramos parte desse tipo de governo? É simplesmente horrível.”

Divisão interna no governo

A proposta causou divergências públicas dentro da própria administração americana. O vice-presidente JD Vance demonstrou ceticismo aos jornalistas:

“Não sei se isso realmente vai acontecer”, disse ele, acrescentando que “se for por transmissão ao vivo, não vou assistir”.

Em contraste, o presidente Donald Trump declarou apoio irrestrito à iniciativa, embora tenha ponderado que o Pentágono ainda avalia os detalhes finais:

“Eu realmente não me importo com a forma como ele for executado, contanto que seja”, disse Trump. “E acho que a pena de morte é uma forma muito digna para ele.”

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