Disputas judiciais, imagens de satélite e anúncios de emprego ajudaram a revelar a grande expansão da residência oficial do presidente da Rússia, Vladimir Putin, às margens do mar Negro. A propriedade em Sochi passou a ser alvo de uma ampla reconstrução mantida sob sigilo pelas autoridades.
A história da propriedade em Sochi Localizada em Sochi, a residência oficial de Bocharov Ruchey já foi utilizada por líderes soviéticos como Nikita Khrushchev e Leonid Brezhnev, além do primeiro presidente da Rússia pós-soviético, Boris Yeltsin. Putin esteve no local pela primeira vez antes de assumir a presidência em maio de 2000 e, desde então, costuma receber autoridades internacionais na região.
Em 2008, o espaço foi oficialmente categorizado como residência presidencial. Conforme explicou Vladimir Kozhin, então chefe do Departamento de Administração de Propriedades da Presidência da Federação Russa, o imóvel permite que o chefe de Estado possa, ali, “se hospedar, trabalhar, morar e exercer todas as suas funções, inclusive a de comandante supremo das Forças Arumadas”.
Mudança de rotina e demolições Embora Putin tenha visitado Sochi 24 vezes em 2021, o número caiu drasticamente para apenas duas vezes entre 2024 e 2025, período que coincidiu com o aumento do alcance de drones ucranianos na costa. Apesar disso, o governo iniciou demolições no local em 2024 e, atualmente, reconstrói o complexo do zero e em escala bem maior, com uma zona de segurança ampliada para mais de 3 km².
Apesar da destruição de grande parte da antiga estrutura, o edifício Bocharov Ruchey-2 — construído para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 — permaneceu intacto e continua recebendo autoridades de alto escalão, como o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, que visitou o local em 2024.
Contratos sigilosos e contratações Como o governo não divulgou o projeto oficialmente, os detalhes foram descobertos por meio de registros judiciais que mencionam um contrato de compras do Estado para a defesa, intermediado pelo Serviço Federal de Proteção (FSO). A empreiteira principal apontada nas disputas legais é a TSI Group, registrada na Crimeia anexada.
Para recrutar mão de obra, foram publicados diversos anúncios em redes sociais e sites de emprego oferecendo vantagens como alojamentos com piscina, três refeições diárias e pagamento em dinheiro. Os textos destacavam que o local exigia rigorosas checagens de antecedentes e contava com forte controle de acesso.
“Uma residência está sendo construída”, dizia um dos anúncios. “Bocharov Ruchey — acesso controlado.” Outro alertava: “A instalação é estratégica.”
A atuação da empreiteira A TSI e seu grupo ligado, o Transstroiinvest, possuem histórico em obras estatais e militares, tendo participado anteriormente da construção de outra residência ligada a Putin na Crimeia. Além disso, a empresa tem atuado em territórios ucranianos ocupados, acumulando contratos expressivos para obras de reconstrução.
Até o momento, nem os representantes da construtora, nem empresários ligados ao empreendimento ou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, responderam aos questionamentos sobre a reforma em andamento.






