As eleições do último domingo, 4, demonstraram que os eleitores brasileiros mudaram de postura e já não se deixam seduzir por celebridades e subcelebridades em busca de votos. A fama por si só deixou de ser passaporte para garantir cadeiras bem remuneradas e cargos públicos de destaque.
O fracasso de famosos e o recuo de Tiririca
Entre os poucos nomes do meio artístico que conseguiram se viabilizar estão Thammy Miranda, eleito deputado estadual por São Paulo, e o ator Thiago Gagliasso, que garantiu uma vaga como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Por outro lado, uma longa lista de ex-jogadores de futebol, apresentadores e atores viu suas carreiras políticas serem encerradas pelas urnas.
O grupo de rejeitados inclui nomes como os ex-jogadores Goleiro Sérgio, Dinei, Finazzi, Luís Fabiano e Marcelinho Carioca, além do técnico Vanderleukin Luxemburgo. Apresentadores como José Luiz Datena, Geraldo Luís, Sikêra Jr., Rachel Sheherazade e Sílvia Abravanel — que utilizou o sobrenome de Sílvio Santos na campanha — também não obtiveram sucesso. A lista de rejeição ainda abrange figuras como Humberto Martins, Lucas Penteado, Netinho de Paula, MC Gui, Andréa Sorvetão, Antônia Fontenelle, Val Marchiori e Inês Brasil.
O desgaste atingiu até mesmo o deputado Francisco Everardo de Oliveira Silva, o Tiririca. Concorrendo pela primeira vez pelo Ceará, sua terra natal, o comediante obteve pouco mais de 5 mil votos e ficou de fora do parlamento. Em 2010, quando estreou na política com o famoso bordão “Pior do que tá não fica”, ele foi eleito com mais de 1,3 milhão de votos. Naquela época, o humorista questionava o próprio papel no legislativo:
“Você sabe o que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei, mas vote em mim que eu te conto”
Com o passar dos anos, a votação de Tiririca despencou drasticamente, refletindo o esgotamento do chamado voto de humor ou de protesto. O cenário de insegurança e medo no país aniquilou a paciência do eleitorado, mostrando que a situação atual não permite desperdício de votos.
A tradição histórica do voto de protesto no Brasil
No passado, quando o sistema eleitoral permitia artifícios diferentes, o voto de protesto gerou episódios pitorescos com animais. Em 1922, o bode Ioiô recebeu centenas de votos para vereador em Fortaleza, em um pleito restrito a homens alfabetizados. Décadas mais tarde, em 1959, o rinoceronte Cacareco conquistou cerca de 100 mil votos para a câmara municipal de São Paulo, superando qualquer legenda partidária da época. Lançada por jornalistas durante uma crise de abastecimento, a fêmea havia sido emprestada pelo zoológico do Rio de Janeiro.
O sucesso de Cacareco inspirou novas investidas satíricas, como a campanha do chimpanzé Tião à Prefeitura do Rio de Janeiro em 1988, promovida pela revista Casseta Popular. O animal era famoso por episódios de temperamento forte, incluindo o arremesso de excrementos em visitantes e uma famosa agressão ao então prefeito. Relembrando o caso em reportagem, o jornalista Sérgio Chapelin narrou:
“…o prefeito, ao ser indagado do motivo da agressão, respondeu à repórter Fernanda Esteves que talvez Tião não tenha gostado da reforma da jaula que o próprio prefeito tinha ido inaugurar no zoológico.”
Caso a candidatura do primata tivesse validade jurídica naquele pleito, ele teria alcançado cerca de 400 mil votos, superando expressivos nomes da política tradicional carioca.
Contudo, o contexto político atual exige maior maturidade da população. A gravidade dos problemas nacionais eliminou o espaço para o uso do voto como instrumento de deboche ou envio de recados irônicos.






