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Como montadoras chinesas transformaram o Brasil em laboratório global

Efeito BYD: como Brasil virou 'laboratório' de empresas chinesas

O avanço da indústria de veículos elétricos da China consolidou o território brasileiro como o principal centro de testes da marca asiática no planeta, redesenhando o setor automotivo nacional e atraindo investimentos recordes bilionários para solo baiano.

A chegada da BYD e a disputa global pelos elétricos

Em Camaçari, na região metropolitana de Salvador, a multinacional assumiu o espaço físico que antes pertencia à Ford. A unidade fabril já produziu dezenas de milhares de carros com kits importados enquanto prepara a fabricação nacional, impulsionando a popularidade dos modelos eletrificados no país.

“Diferentemente de todas as outras regiões, a China apostou na eletrificação mais do que todo o mundo”, aponta Rogélio Golfarb, que foi executivo da Ford no Brasil por décadas, presidente da Anfavea e hoje atua como consultor.

Segundo ele, a estratégia envolveu um ecossistema completo de incentivos governamentais, pesquisa e desenvolvimento focados na inovação e na verticalização da produção.

Integração cultural e os novos fluxos migratórios

A presença de trabalhadores estrangeiros na Bahia gerou um movimento discreto de adaptação mútua, marcado por novos comércios locais, aplicativos de mensagens e interações sociais intensas entre brasileiros e imigrantes.

“Eles amam essa liberdade aqui da Bahia. Amam o calor humano”, ressalta a corretora Cássia Cotia, que vive em um condomínio em que mais de 60 imóveis estão alugados para chineses.

Conflitos trabalhistas e desafios sindicais

O ritmo acelerado de produção imposto pelas corporações asiáticas também provocou atritos nas relações de trabalho e debates sobre direitos laborais no chão de fábrica.

“Eu tive a Ford, que teve 12 mil carros Courier enquanto treinava o pessoal durante dois anos e produzindo depois. A BYD já está produzindo, trocando o pneu com o carro a 180 quilômetros por hora”, ilustra o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Júlio Bonfim.

Em nota, a empresa declarou que “não tolera qualquer forma de assédio, discriminação ou conduta que viole a lei”, destacando que “mantém canais internos que permitem denúncias de forma confidencial e anônima e trata com seriedade todo relato recebido, com apuração e adoção das medidas cabíveis”.

Em relação a investigações anteriores de trabalho análogo à escravidão em canteiros de obras de terceirizadas, a companhia informou que “em dezembro de 2025, foi firmado acordo com Ministério Público do Trabalho para encerrar o processo relacionado aos fatos apurados no ano anterior”, acrescentando que “pelo acordo, as empreiteiras terceirizadas concordaram em pagar integralmente o valor de R$ 40 milhões” e que “o caso foi solucionado por acordo, sem julgamento de mérito ou condenação judicial.”

Parceria estratégica e autonomia geopolítica

O aprofundamento das relações comerciais exige cautela de especialistas para garantir o desenvolvimento tecnológico autônomo do país diante da disputa entre potências globais.

“Temos que tomar muito cuidado para que a gente não mude a dependência que tínhamos no período colonial da Europa, que depois foi substituída pelos Estados Unidos, para agora criar uma dependência com a China”, avalia o professor Wendel Henrique Baumgartner.

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