Uma nova onda de agitações sociais espalha-se por diferentes continentes, impulsionada principalmente por jovens nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início da década de 2010. Da América Latina à Ásia, integrantes da chamada geração Z têm ocupado praças e avenidas contra o alto custo de vida, cortes orçamentários na educação, escândalos eleitorais e a precarização geral de seus futuros.
Conexão digital e repercussão em tempo real
A articulação rápida e visual dessas revoltas se apoia em plataformas como Instagram, TikTok, Telegram e WhatsApp. De acordo com Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os ambientes digitais atuam como catalisadores imediatos do descontentamento, permitindo que táticas e demandas se espalhem instantaneamente pelas fronteiras.
Questões orçamentárias na educação de países como França, Chile e Argentina, ou a crise da moradia na Espanha e os escândalos nos vestibulares na Índia, geram uma identificação geracional imediata, explica Bressan.
Para a docente, o elemento que une os participantes em diversas partes do planeta supera ideologias partidárias formais: O traço comum é a rejeição à precarização e aos privilégios de castas políticas, independentemente do espectro ideológico formal do governante.
Ela acrescenta que a retomada de símbolos combativos reflete a pressão econômica enfrentada por essa faixa etária. Então, diante de aluguéis inacessíveis, cortes na educação e na previdência, os símbolos da esquerda radical voltam a ser adotados pela juventude como a forma mais direta de rejeitar o neoliberalismo e o mercado regulamentado, pontua.
Mobilizações na Europa: salas de aula e moradia em pauta
Na França, estudantes de nível secundário e superior têm liderado passeatas contra a carência de professores e a decadência das estruturas de ensino. Em 13 de outubro, mais de 160 mil cidadãos marcharam pelo país, conforme dados oficiais do Ministério do Interior. Paralelamente às queixas educacionais, a resposta violenta das forças policiais ganhou visibilidade nas redes por meio de gravações feitas pelos próprios estudantes. Relatos compilados pelo jornal Le Monde indicam mais de 6,7 mil menores detidos e 36 apurações abertas sobre abusos policiais.
Na Península Ibérica, a Espanha registrou passeatas com ampla participação juvenil diante da escalada dos preços dos imóveis. A indignação coletiva disparou após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, que morreu poucos dias depois de perder a residência.
Já na Albânia, protestos estudantis contra a precariedade do ensino superior e o desemprego escalaram para uma contestação geral ao primeiro-ministro Edi Rama. Entre as denúncias, os jovens condenam a corrupção e a aprovação de um resort luxuoso na costa sul, empreendimento associado a Jared Kushner, genro de Donald Trump.
Humor e protesto no cenário asiático
O uso da sátira política e da linguagem da internet tornou-se marca registrada de manifestações no continente asiático. Na Índia, estudantes fundaram a Cockroach Janta Party (Movimento das Baratas), transformando termos pejorativos direcionados a jovens desempregados em instrumento de ativismo.
A iniciativa, que denunciou irregularidades em exames de admissão e corrupção governamental, pressionou Dharmendra Pradhan a deixar o cargo de ministro da Educação em julho. Mais recentemente, o grupo voltou a protestar em Nova Délhi exigindo a demissão de Gyanesh Kumar, chefe da Comissão Eleitoral, devido à exclusão de mais de 130 milhões de eleitores dos registros oficiais.
Outro marco recente ocorreu no Nepal, onde protestos violentos em setembro de 2025, motivados inicialmente pela censura a redes digitais, culminaram na morte de 76 pessoas segundo a Anistia Internacional. O ápice do confronto resultou na queda do premiê K. P. Sharma Oli e na eleição parlamentar de março de 2026, vencida por uma sigla nova chefiada por Balendra Shah.
Atritos estudantis e sociais no Chile
Na América do Sul, a juventude chilena mantém o enfrentamento direto contra a gestão do presidente de direita José Antonio Kast. Sob o slogan Nem um peso a menos para a educação, a Confederação de Estudantes do Chile (Confech) reuniu cerca de 20 mil manifestantes em 1º de outubro, mobilização que resultou em ao menos 31 prisões.
Os atos se somaram a marchas de comunidades indígenas, incluindo os mapuches, em defesa da posse da terra e do resgate de tradições ancestrais, refletindo um clima contínuo de tensão política.
Diferenças entre as gerações nas ruas
O engajamento atual guarda contrastes marcantes em relação às revoltas estudantis das décadas de 1960 e 1970, como o Maio de 1968 francês e as lutas contra regimes ditatoriais no Brasil. Luciano Gomes, professor de ciências sociais do Centro Universitário Arnaldo Janssen, explica que os atos históricos dependiam de assembleias presenciais, materiais impressos e forte vínculo com partidos ou doutrinas estabelecidas.
Embora esses movimentos também fossem heterogêneos, havia maior presença de estruturas organizativas tradicionais e de projetos políticos explicitamente identificados com determinadas correntes, como o socialismo, o comunismo, o liberalismo e outras formas de pensamento político, destaca Gomes.
Ao analisar o papel da conectividade moderna, o pesquisador sublinha que a instantaneidade da comunicação amplia a solidariedade, mas traz desafios à sustentabilidade dos movimentos. Nas gerações anteriores, a circulação das informações dependia mais da imprensa, dos panfletos, das reuniões presenciais e das redes de militância, lembra o docente, alertando que a internet facilita a mobilização, mas também favorece a circulação de desinformação, a polarização e a disseminação de conteúdos que podem estimular confrontos.






