Prestes a colar grau em novembro de 2026, Kelly Cristina Almeida Souza, de 23 anos, está perto de realizar a meta que transformou a realidade da sua casa. Vinda de uma trajetória integralmente cursada na rede pública, a jovem conquistou uma vaga direta do terceiro ano do ensino médio em uma das faculdades mais disputadas do país, superando limitações financeiras e paradigmas tradicionais.
Apoio materno contra expectativas tradicionais
O caminho até a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) exigiu enfrentar cobranças de parentes próximos. Em um ambiente familiar marcado pela religiosidade rígida, esperava-se que as mulheres se dedicassem ao matrimônio em vez do ingresso no ensino superior.
“Minha família realmente é muito religiosa e tinha essa expectativa sobre as mulheres da família, de se casarem, de não estudar. Não era uma coisa que se esperava de uma mulher. Mas minha mãe, especificamente, sempre me ajudou muito”, contou.
Aos 16 anos, a estudante atuava como operadora de caixa em uma padaria para conseguir comprar um computador. Ao perceber a vocação da filha, a mãe — uma técnica de enfermagem aposentada — interveio diretamente e comunicou o desligamento ao comércio para priorizar a formação da jovem.
“Ela falou: ‘Não, ela não vai trabalhar aqui não, ela vai estudar pra ser médica’”, relembrou Kelly.
A determinação também nasceu da necessidade de garantir melhores condições de vida para o lar, mantido com renda próxima a um salário mínimo. “Eu entrei no curso pensando em mudar a situação financeira da minha família mesmo. Minha mãe é técnica de enfermagem, só que ela era aposentada e ganhava um salário mínimo. Nós somos em quatro crianças lá em casa, então era uma situação financeira muito difícil ”, contou.
Rotina de estudos estruturada em casa
Sem recursos para custear um cursinho preparatório, a então aluna da Escola Técnica Estadual (Etec) de Botujuru apostou na internet para estruturar seu cronograma em 2020. A ambição pela carreira médica havia sido despertada um ano antes, quando tirou 920 pontos na redação do Enem e recebeu o incentivo de uma professora de língua portuguesa.
Durante a preparação, Kelly utilizou videoaulas abertas no YouTube e materiais liberados por instituições durante a pandemia. Ela dedicava oito horas diárias de segunda a sexta-feira, dividindo o tempo entre revisões teóricas pela manhã, novos conteúdos à tarde e resolução de exercícios antigos. Os sábados eram focados em simulados, e os domingos, no repouso, enquanto conciliava o cronograma com serviços domésticos e o cuidado dos três irmãos.
Controle emocional e visita estratégica
O rendimento inicial abaixo dos pontos de corte gerava momentos de insegurança. “Tinha muita ansiedade envolvida no processo, incerteza, né? Eu não comecei a minha preparação atingindo as notas de corte, muito pelo contrário, eu fazia muito abaixo. Então tinha um quê de frustração também”, relatou.
Para manter o equilíbrio, adotou a prática diária de yoga e meditação às 9h. “Foi uma coisa fundamental para eu manter o mínimo de calma que eu consegui”, disse. Na reta final, após uma crise de ansiedade antes da primeira fase, a mãe a levou para conhecer o campus universitário, restaurando sua motivação.
Conquista da vaga e novos horizontes
O esforço culminou na aprovação em primeira chamada no vestibular de 2021, na 371ª colocação, por meio do sistema de cotas voltado a estudantes de escolas públicas autodeclarados pardos. Kelly também avançou para as segundas fases da USP e da Unesp, mas optou pela Unicamp assim que saiu a lista.
A celebração com a mãe ficou marcada na memória: “Eu esperei ela [mãe] chegar em casa, aí quando ela chegou eu falei assim: ‘Adivinha quem passou em medicina na Unicamp?!’. Ela ficou desacreditada, aí já começou a ligar para todo mundo que conhecia”, relembrou.
Ao se mudar para o distrito de Barão Geraldo, em Campinas, a jovem passou a morar sozinha pela primeira vez, sustentando-se com auxílios e bolsas de permanência estudantil. Focada no futuro, ela planeja fazer residência médica em oftalmologia e deixa um recado a outros vestibulandos:
“Mesmo que você venha de uma escola pública, mesmo que você não tenha todas as privilégios do mundo quando você está se preparando, a gente tem, hoje em dia, um monte de ação social, um monte de ação afirmativa, lembrando que é possível , ajudando você a não deixar de sonhar. Eu vejo muita gente parando de sonhar porque não vê isso e eu acho que você tem que correr sim atrás dos seus sonhos, eu sou prova viva de que é possível “, disse.






