O que começou como resposta a episódios de discriminação racial transformou-se em uma engrenagem econômica potente e de projeção internacional. Criada para suprir uma lacuna histórica de representatividade no setor de viagens, uma empresa pioneira em afroturismo alcançou um faturamento anual de R$ 4 milhões ao estruturar uma rede que conecta viajantes a vivências centradas na ancestralidade e na cultura negra.
Da discriminação à oportunidade de mercado
A gênese da iniciativa remonta a uma década atrás. O empresário Carlos Humberto vivenciou situações explícitas de preconceito tanto em viagens quanto em sua própria residência, alugada por temporada para turistas. Em um dos episódios mais marcantes, hóspedes desistiram da estadia no momento em que souberam que o proprietário era um homem negro.
“Eu entendi ali não como uma dor, mas como uma oportunidade de olhar para o mercado do turismo de uma maneira a revisitar a experiência de oferta e de qualificação”, afirma.
Ao lado de sócios, Carlos estruturou um marketplace focado em experiências afrocêntricas. Atualmente, a base reúne mais de 800 parceiros cadastrados, com roteiros distribuídos por 145 municípios e atuação global. Segundo o fundador, a proposta não restringe o público consumidor:
“O afroturismo é o mercado econômico dentro do turismo, desenvolvido por e com a população negra, mas que não é exclusivo para a população negra. Pelo contrário: são empreendedores negros que desenvolvem negócios de turismo, e é um mercado que se abre a qualquer pessoa”, diz o fundador.
Curadoria estratégica e expansão internacional
O modelo operacional viabiliza que guias, anfitriões e agentes culturais divulguem seus serviços na plataforma digital, enquanto a companhia faz a gestão de qualidade e retém uma comissão sobre cada reserva efetuada. De acordo com o diretor comercial e de marketing, Haroldo Nascimento, a triagem minuciosa é o pilar de sustentação da marca.
“A curadoria é a parte mais importante hoje do nosso negócio. A gente olha para a qualidade do anúncio, para o roteiro e também para o guia que está fazendo essa experiência”, explica.
A maturidade da operação reflete-se na estrutura: o negócio conta com 30 colaboradores, atende consumidores em 18 nações e inaugurou recentemente sua primeira sede externa, sediada em Portugal.
Geração de renda e resgate de narrativas
Na ponta da cadeia produtiva, o sistema gera impactos diretos para profissionais independentes. Em Florianópolis, a turismóloga e guia Bia Pimentel conduz uma caminhada histórica pelo centro da capital catarinense focada em personalidades negras ausentes dos guias tradicionais. O passeio, comercializado a R$ 130 por pessoa, ganhou escala por meio da ferramenta.
“Através dessa plataforma a gente conseguiu centralizar os nossos tours, diversificar as opções de produtos e serviços e ampliar principalmente o público-alvo”, diz.
O movimento estabelece uma rede que impulsiona desde cozinheiros e artesãos até músicos e pequenos prestadores de serviço locais. Para Carlos Humberto, o propósito transcende a atividade comercial e toca a valorização da memória coletiva: “Mais que o resgate, a ideia é abrir esse conhecimento ao mundo. Um conhecimento que muitas vezes foi invisibilizado, foi camuflado e ficou restrito somente a pessoas negras.”
“Viajar sem medo é o exercício de uma liberdade, de você poder se sentir seguro para experimentar, vivenciar experiências que vão te transformar, que vão te trazer inspirações”, finaliza Carlos Humberto.






