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Recife premia moradores que trocam o carro por caminhadas e bicicletas

Projeto no Recife troca caminhadas e pedaladas por cupons para transporte por app, descontos e recompensas

Moradores da capital pernambucana que optam por caminhar ou pedalar em seus deslocamentos diários agora contam com um incentivo tecnológico que transforma o trajeto em recompensas reais, como descontos comerciais e vales para transporte por aplicativo.

Como funciona o Mova-se pelo Futuro

A ferramenta opera diretamente no Conecta Recife, o portal oficial da prefeitura, dispensando o download de novos programas. Para participar, é preciso ter cadastro na plataforma, ser maior de idade e selecionar a opção correspondente ao meio de transporte antes de iniciar o percurso.

O sistema faz o rastreamento via GPS e, a cada 30 quilômetros validados, o participante acumula créditos que podem ser trocados no marketplace por benefícios. O portfólio inclui redução de 20% em seguros para bicicletas, clube de descontos e vouchers de R$ 10 para corridas de carro por aplicativo, com previsão de novos parceiros no futuro.

Em apenas um mês de operação, o programa validou 5.524 rotas, ultrapassando a marca de 20 mil quilômetros rodados. Mais de 3 mil cadastros foram realizados, resultando em quase 3 mil horas de mobilidade ativa e na redução estimada de mais de 2,2 mil quilos de gás carbônico na atmosfera.

Foco na rotina e nas viagens utilitárias

A plataforma foi desenhada exclusivamente para viagens com finalidades práticas, como ir ao trabalho, à faculdade ou a estabelecimentos comerciais. Atividades físicas, corridas e passeios recreativos de bicicleta ou a pé ficam de fora das regras de pontuação.

“O que a gente quer é, em vez de ir para a academia de academia de carro, vá andando. Quem conseguir ir para o trabalho de bicicleta ou a pé, faça isso. E a ideia é justamente que a gente consiga bonificar esses bons hábitos”, explica Viviane Kawashima secretária executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação da prefeitura.

Marcio Rodrigues, fundador e CEO da Bion Global — startup parceira na criação da tecnologia —, destaca o perfil dos trajetos registrados até o momento.

“Até agora, a grande maioria dos trajetos validados aconteceu em dias úteis, com picos às 7h e às 17h, e a maior parte são deslocamentos curtos. É a mobilidade ativa sustentável de rotina: a pé e de bicicleta, sem emissão. Nosso papel é reconhecer e medir essa escolha, com tecnologia verificável”, afirma.

Validação por algoritmo e ajustes

O programa utiliza um algoritmo que avalia parâmetros como distância, tempo de percurso e velocidade média para certificar o deslocamento. Percursos circulares, que começam e terminam no mesmo local, são descartados automaticamente por não configurarem uma viagem entre destinos distintos.

Por estar em fase de testes, o sistema ainda pode registrar pequenas falhas, como a aprovação indevida de veículos presos no trânsito lento. Os desenvolvedores monitoram os feedbacks da comunidade para refinar a precisão da ferramenta.

“Ele vai avaliar, basicamente, a distância que você percorreu, o tempo do trajeto e aí ele considera também a velocidade média. Então, baseado nos modais que são aceitos pela plataforma, que é a caminhada e o uso de bicicleta, seja elétrica ou normal, é que ele consegue ver a velocidade média. Como é via algoritmo, podem acontecer situações de ter uma distorção ou de ele aprovar um trajeto que não tenha sido efetuado por bicicleta”, explicou Viviane Kawashima.

Testes de longo prazo e expansão

A fase de experimentação tem duração prevista de um ano, período viabilizado pelo programa municipal de inovação aberta EITA Labs. A iniciativa serve para testar soluções urbanas em ambiente real sem custos para a administração pública.

A concepção do projeto surgiu em 2020, impulsionada pelo questionamento de seus criadores sobre a possibilidade de bonificar quem adota práticas ecológicas. “E se quem faz a coisa certa pela cidade e pelo planeta fosse recompensado por isso?”, resume Marcio Rodrigues sobre a motivação inicial.

A escolha da capital pernambucana para sediar o piloto se deve ao relevo plano e ao engajamento da população em causas socioambientais.

“A gente identificou que Recife era o cenário ideal para o teste: tem desafios sérios de mobilidade, uma área praticamente toda plana, boa para caminhar e pedalar, e um povo que costuma abraçar e participar de programas socioambientais. É uma capital populosa, com economia pujante, e, ao mesmo tempo, turística, uma vitrine para o mundo. O que funcionar aqui tem tudo para funcionar em outros lugares”, afirmou o CEO.

O modelo também garante gratuidade para a população e preservação da memória dos celulares dos usuários.

“O cidadão não precisa pagar nada para poder aderir à plataforma. Não precisa baixar um aplicativo, porque tudo isso é uma premissa do nosso ‘sandbox digital’. A gente não quer que as pessoas utilizem mais um aplicativo. Então, tudo precisa ser embarcado dentro do próprio Conecta”, pontua a secretária executiva.

Ao término do período de testes, a prefeitura receberá um relatório completo com dados consolidados, material que servirá para embasar futuras políticas públicas voltadas a pedestres e ciclistas.

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