Mesmo quando o volume do Rio Iguaçu sobe vertiginosamente e cobre a estrutura que conduz os visitantes aos mirantes, o concreto permanece imóvel. O ponto turístico, localizado em Foz do Iguaçu, no oeste paranaense, já enfrentou vazões extremas de até 46 milhões de litros por segundo e, mais recentemente, ultrapassou a marca de 15,8 milhões de litros por segundo — mais de dez vezes o fluxo habitual —, sem sofrer abalos estruturais.
Engenharia de ponta: o segredo das estacas-raiz
A explicação para a sustentação de vigas e pilares diante da violência da correnteza reside na técnica de fundação adotada: a estaca-raiz. Ao contrário de pilares que apenas repousam sobre o solo do leito, essas estruturas são perfuradas de forma profunda diretamente no maciço rochoso submerso.
Após a perfuração da rocha basáltica, os técnicos inserem armações de aço e preenchem as cavidades com uma calda de cimento injetada sob alta pressão, criando uma ancoragem rígida entre a formação geológica e a passarela.
De acordo com Vinicius Lorenzi, diretor de engenharia da Fungeo, empresa que realizou o trabalho de fundações, o processo foi desenhado para compensar forças hidrodinâmicas brutais. “A estaca-raiz é uma estaca que faz embutimento na rocha e isso faz com que ela absorva grandes esforços. É um tipo de fundação que nós utilizamos em várias outras obras em Foz do Iguaçu”, explicou Lorenzi.
O engenheiro detalha que o cálculo estrutural priorizou a pressão lateral da água, que é imensamente superior ao impacto ocasional de galhos, troncos ou outros detritos arrastados pelas cheias.
Desafio histórico e o desvio do Rio Iguaçu nos anos 1990
O desenho atual da passarela nasceu de uma necessidade histórica. A instalação primitiva, construída na década de 1970, ruiu durante uma grande enchente nos anos 1980. O novo projeto começou a ser erguido em 1992 e foi finalizado em 1993, enfrentando enormes desafios logísticos.
Para viabilizar a perfuração das pedras, os operários precisaram desviar temporariamente o curso do rio. O engenheiro Márcio Marcon, que participou da construção, relata que a primeira barreira montada perto das quedas não aguentou o repique das águas.
“Durante a execução da obra, foram pelo menos duas enchentes similares a essa. Em uma delas, a gente perdeu equipamentos, obviamente nunca mais encontramos. Mas a parte de concreto ficou absolutamente intacta”, afirmou.
Para solucionar o problema, uma equipe de 20 a 30 trabalhadores executou um novo dique de desvio quilômetros acima das cataratas, garantindo o leito seco necessário para fixar as armaduras e injetar o concreto.
Monitoramento milimétrico e protocolo para reabertura
A estabilidade do local é acompanhada com instrumentos de alta precisão. A concessionária Urbia+Cataratas utiliza prismas topográficos posicionados nos pilares, capazes de captar qualquer oscilação minúscula por meio de estações totais.
André Franzini, gerente de sustentabilidade da concessionária, destaca a eficácia dos testes comparativos contínuos. “Desde que a gente assumiu, que a gente começou a fazer esse monitoramento, nunca teve nenhuma alteração, nem que seja milimetricamente”, afirmou Franzini.
Para que o passeio seja reaberto ao público após uma enchente, duas condições rígidas precisam ser cumpridas: o fluxo do rio deve recuar para menos de 8 milhões de litros por segundo e um engenheiro estrutural deve inspecionar pessoalmente pilares e lajes para atestar a segurança em laudo técnico.
Desmontagem de grades para reduzir a força do rio
A interdição turística e a retirada preventiva do gradil metálico de proteção são medidas essenciais durante os picos de cheia. Sem as grades, a água encontra menos atrito para escoar livremente sobre o piso de concreto, diminuindo o empuxo hidrodinâmico e evitando o represamento perigoso de vegetação densa.
A desmontagem dessas peças ocorre sempre que há previsão de que o nível do rio atinja o tabuleiro da passarela, funcionando como uma manobra preventiva que preserva a integridade de uma das obras mais resistentes do turismo brasileiro.






