Do fim do Pix ao voto feminino: publicações espalham uma lista de medidas atribuídas a Flávio Bolsonaro sem que o candidato tenha anunciado nenhuma delas nos termos em que circulam nas redes.
Uma enxurrada de publicações passou a circular durante a campanha presidencial atribuindo a Flávio Bolsonaro propostas como acabar com o Pix, extinguir aposentadorias, eliminar o 13º salário, privatizar o SUS, acabar com o Bolsa Família e retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A Fronte Brasil analisou dez dessas alegações. Em vários casos, veículos de checagem classificaram as mensagens como falsas. Em outros, discussões econômicas ou propostas de aliados foram transformadas em frases categóricas que Flávio não apresentou como proposta oficial.
Nota de transparência: os prints que chegaram à redação não permitem identificar, por si só, a autoria individual de cada peça. O título desta reportagem usa “fábrica de fake news do PT” em sentido editorial, diante da circulação de narrativas no ecossistema pró-Lula e do embate público entre as campanhas. O que esta matéria verifica objetivamente é o conteúdo das alegações.

1. “Flávio vai retirar Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil”
Falso. A narrativa foi associada a um projeto de 2007 apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli. Flávio Bolsonaro não era autor da proposta e não anunciou medida para retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
O Projeto Comprova registrou que Flávio não fez essa afirmação nem indicou ter feito esse movimento. O TSE também determinou a retirada de publicações que associavam o candidato a essa suposta intenção.
2. “Flávio vai privatizar o SUS”
Falso como declaração atribuída ao candidato. Não há registro de Flávio afirmando que tornaria o SUS pago ou que privatizaria integralmente o sistema. A discussão real envolve propostas de gestão e maior participação privada em áreas da saúde, o que é diferente de extinguir o atendimento público e gratuito.

3. “Flávio vai implantar escala 7×0 sem folga”
Enganoso. Não há proposta oficial de extinguir o repouso semanal e obrigar trabalhadores a cumprir sete dias consecutivos sem folga. A polêmica surgiu a partir de debates sobre flexibilização de jornada e contratação por hora.
Esse debate pode ser criticado, mas transformá-lo em “Flávio vai obrigar o brasileiro a trabalhar 7×0 sem folga” não reproduz uma proposta anunciada pelo candidato.
4. “Flávio vai acabar com o Pix”
Falso. O UOL Confere identificou como falsa uma montagem que atribuía a Flávio a frase de que acabaria com o Pix. Não há registro público confiável dessa declaração.
O próprio candidato já chamou o Pix de patrimônio brasileiro, embora também tenha feito afirmações incorretas sobre a origem do sistema e sobre uma suposta tentativa de taxação no governo Lula. Isso não muda o ponto central: ele não anunciou o fim do Pix.
5. “Flávio vai acabar com a Farmácia Popular e os remédios gratuitos”
Falso como afirmação categórica. A campanha de Flávio negou que pretenda acabar com a Farmácia Popular. O candidato também afirmou que programas sociais seriam mantidos.
Há discussão legítima sobre como um ajuste fiscal poderia afetar despesas públicas. Mas projetar impacto econômico é diferente de afirmar que o candidato anunciou o fim do programa.
6. “Flávio vai acabar com as aposentadorias”
Falso. Um vídeo em que Flávio supostamente anunciava cortes em aposentadorias e outros direitos foi identificado pelo UOL Confere como manipulado por inteligência artificial.
Além disso, Flávio declarou que não pretende fazer ajuste fiscal “em cima dos aposentados” e passou a defender reajuste das aposentadorias acima da inflação.
7. “Flávio vai acabar com o Bolsa Família”
Falso. Não há proposta anunciada por Flávio Bolsonaro para extinguir o Bolsa Família. Checagens já desmentiram publicações que atribuíam a ele o fim ou a substituição do programa.

Durante a campanha, Flávio afirmou que os programas assistenciais seriam mantidos para quem precisasse deles e, no segundo turno, disse que “ninguém vai tocar em programas sociais”.
8. “Flávio vai acabar com o 13º salário”
Falso. O plano de governo não traz proposta de extinguir o 13º salário. Publicações que atribuíram à campanha medidas como fim do 13º, aumento extremo da idade mínima de aposentadoria e encerramento do BPC foram desmentidas.
O mesmo tema também apareceu em vídeo manipulado por IA, no qual falas inexistentes foram colocadas na boca do candidato.
9. “Flávio vai congelar aposentadorias e salário mínimo”
Enganoso. Aqui existe uma nuance. Integrantes e economistas próximos da campanha discutiram alternativas para conter despesas obrigatórias, inclusive mudanças em regras de reajuste. Isso é fato e merece escrutínio.
Mas Flávio afirmou publicamente que não seria necessário mexer em aposentadorias nem na política do salário mínimo para realizar o ajuste fiscal. Mais tarde, sua campanha lançou material dizendo que manteria a correção do salário mínimo pela inflação.
Portanto, apresentar “congelamento” como decisão tomada e anunciada pelo candidato vai além do que ele declarou publicamente.
10. “Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira querem acabar com o voto feminino”
Não há proposta desse tipo. Não existe programa, projeto ou declaração de Flávio Bolsonaro propondo retirar das mulheres o direito de votar.
A narrativa ganhou força em meio a falas polêmicas de apoiadores do campo bolsonarista sobre o comportamento eleitoral feminino. Transformar a opinião de terceiros em uma proposta de Flávio e Nikolas é uma atribuição sem base documental.
A mesma fórmula se repete
Os conteúdos analisados seguem um padrão: escolhem um tema de alto impacto emocional — religião, saúde, salário, aposentadoria, direitos trabalhistas ou voto feminino — e atribuem ao candidato uma frase curta e alarmante: “vai acabar”, “vai retirar”, “vai privatizar”, “vai congelar”.
Quando se procura o vídeo original, o documento, o plano de governo ou uma entrevista em que Flávio teria anunciado essas medidas, a declaração não aparece nos termos usados pelas peças.
Isso não significa que o candidato esteja acima de críticas. Suas propostas econômicas, a meta de ajuste fiscal, as ideias sobre jornada de trabalho, Previdência, saúde e políticas sociais devem ser examinadas com rigor. Também existem pontos pouco detalhados e debates internos que merecem cobrança pública.
Mas existe uma diferença entre dizer “essa política pode causar determinado efeito” e afirmar “o candidato disse que vai acabar com determinado direito” quando ele não disse.
Fake news não deixa de ser fake porque foi compartilhada milhares de vezes
As dez alegações analisadas atingem justamente assuntos de enorme sensibilidade para milhões de brasileiros. Por isso têm potencial de viralização.
Até o momento, não há registro público confiável de Flávio Bolsonaro anunciando que acabará com o Pix, privatizará integralmente o SUS, extinguirá o Bolsa Família, encerrará a Farmácia Popular, acabará com aposentadorias ou com o 13º salário, criará uma jornada obrigatória de sete dias sem folga ou retirará das mulheres o direito de votar.
Também já foi demonstrado que a história sobre Nossa Senhora Aparecida não tinha origem em proposta de Flávio Bolsonaro.
Criticar propostas é política. Inventar propostas e colocá-las na boca de um adversário é desinformação.
Fontes consultadas: UOL Confere, CNN Brasil, Projeto Comprova, Boatos.org, Folha de S.Paulo, decisões e informações públicas da Justiça Eleitoral.
UOL Confere — Pix ·
UOL Confere — Bolsa Família ·
Boatos.org — SUS ·
UOL Confere — aposentadorias e 13º ·
CNN Brasil — Nossa Senhora Aparecida ·
CNN Brasil — onda de desinformação





