Nascido sem visão, o professor Fábio Deodatto transformou as barreiras enfrentadas na infância em combustível para dedicar sua vida à educação especial. Atualmente, aos 43 anos, ele atua diretamente na capacitação de 150 docentes que atendem aproximadamente 1,9 mil alunos com deficiência na rede municipal de ensino de Ribeirão Preto, no interior paulista.
A trajetória de superação e a escolha pela docência
Ao longo da sua trajetória escolar, Fábio enfrentou a falta de materiais acessíveis e o ceticismo de educadores que duvidavam de seu potencial de aprendizado. Memórias de infância em que sua mãe precisava transcrever tarefas para que os professores pudessem corrigir marcaram sua formação, impulsionando o desejo de transformar essa realidade.
“Desde muito novo, fiquei pensando no que eu fazer para mudar esse contexto. Para libertar a minha mente desse cárcere capacitista que a sociedade já impunha, eu precisava estudar”, relata o educador.
Com forte determinação, ele cursou pedagogia em uma época sem recursos acessíveis na faculdade, contando com a ajuda de colegas e professores. Além disso, acumulou outras cinco graduações antes de prestar concurso público e ingressar na Secretaria de Educação do município em 2009.
Expansão do atendimento educacional especializado
Quando Fábio começou a atuar na rede municipal, a cidade contava com apenas duas salas voltadas ao atendimento educacional especializado (AEE). Hoje, o número saltou para quase 40, prestando suporte a estudantes com deficiências físicas, intelectuais, sensoriais, transtorno do espectro autista (TEA), síndrome de Down e altas habilidades.
Em sua rotina atual, o educador desenvolve materiais pedagógicos, elabora planos educacionais, visita escolas e planeja conteúdos formativos para os professores da rede.
“Eu leio artigos, estudo a temática, crio os slides e organizo todo o processo para passar essa formação. Quando é necessário, também visito as escolas para acompanhar os alunos e entender do que eles precisam”, explica.
A luta contínua contra o capacitismo
Apesar dos avanços estruturais e legais conquistados ao longo dos anos, o professor aponta que o capacitismo continua sendo um dos maiores obstáculos para a inclusão plena. Para ele, a mudança de perspectiva começa pela forma como a sociedade enxerga o indivíduo.
“Por que pessoa com deficiência? Porque a deficiência vem depois da pessoa. Primeiro é a pessoa, ela tem um nome. Meu nome é Fábio. Eu não sou o ceguinho do bairro. Sou cego, mas a cegueira não me caracteriza no sentido de empoderamento ou inferioridade. A cegueira é um componente do que sou”, conclui.






