A combinação sem precedentes entre as emissões de gases poluentes e o fenômeno El Niño transformou o furacão Polo em uma das tempestades mais velozes a ganhar força no Oceano Pacífico. Em apenas um dia, a formação saltou de uma tempestade tropical para a categoria 5, a mais alta na escala meteorológica, antes de atingir o território mexicano e provocar cinco mortes em setembro.
Combinação perigosa no Pacífico
De acordo com uma análise de atribuição elaborada pela World Weather Attribution (WWA), as alterações atmosféricas provocadas pela queima de combustíveis fósseis exerceram uma pressão equivalente ou superior à do El Niño no desenvolvimento da tempestade. O estudo indica que a influência humana tornou as condições favoráveis à aceleração extrema do fenômeno cerca de 23 vezes mais prováveis, enquanto a oscilação natural do El Niño elevou esse risco em 14 vezes.
Para chegar a essas conclusões, os especialistas avaliaram diferentes indicadores oceanográficos e atmosféricos:
- Águas superaquecidas: a superfície do mar por onde o ciclone se deslocou registrava temperaturas cerca de 1,4°C superiores à média da era pré-industrial.
- Força dos ventos: as mudanças no clima adicionaram aproximadamente 10 km/h à velocidade das rajadas sustentadas da tormenta.
- Intensidade potencial: o limiar máximo de energia que o ciclone poderia acumular aumentou entre 14 e 18 km/h devido ao calor adicional retido no planeta.
- Precipitações severas: eventos de chuvas torrenciais na região analisada tornaram-se cerca de seis vezes mais frequentes com a nova dinâmica climática.
O pesquisador Ben Clarke, especialista em extremos meteorológicos do Imperial College London e integrante do grupo de cientistas, pontuou a dimensão do evento:
“Quando um furacão passa de tempestade tropical para categoria 5 em apenas 24 horas, estamos vendo a força combinada de um El Niño intenso e do aquecimento provocado pelas emissões de combustíveis fósseis”, afirmou em um comunicado.
Impacto na costa e lições para o futuro
Após iniciar sua formação no dia 20 de setembro e explodir em intensidade dois dias depois em mar aberto, o Polo perdeu parte de sua potência antes de tocar a terra. Ele atingiu a costa mexicana na região da Baixa Califórnia Sul como categoria 2 e avançou até o estado de Sonora rebaixado para categoria 1.
Mesmo com a perda de força, o ciclone causou inundações severas, quedas de árvores, deslizamentos de terra e estragos em estruturas urbanas. A baixa densidade demográfica das localidades atingidas e a emissão de alertas preventivos foram apontadas pelo estudo como fatores fundamentais para impedir um número maior de vítimas.
Para Ruth Cerezo-Mota, climatologista da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), o caso serve de alerta urgente para a adaptação das comunidades costeiras:
“Polo foi uma prévia do que pode acontecer. Precisamos estar preparados para esses eventos, porque talvez não tenhamos tanta sorte da próxima vez”, afirma.






