A hipertensão arterial atinge quase 30% da população adulta brasileira e continua representando um dos maiores desafios para a medicina preventiva. Conhecida popularmente como pressão alta, a doença crônica força o coração a trabalhar de maneira mais intensa para bombear o sangue através das artérias, o que eleva consideravelmente o risco de acidentes vasculares cerebrais, infartos, aneurismas e insuficiência cardíaca.
O obstáculo da adesão medicamentosa
Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que cerca de 80,7% dos adultos diagnosticados recebem prescrição de medicamentos. No entanto, 19,35 dos pacientes ignoram o cuidado adequado. O principal obstáculo no combate à condição é a dificuldade em manter a constância na rotina de cuidados. Segundo o cardiologista Vagner Madrini Junior, pesquisador na ARO (Academic Research Organization), do Einstein Hospital Israelita, o cenário persiste apesar da facilidade de diagnóstico e da ampla oferta de remédios gratuitos.
“Temos um mundo de medicações para tratar a hipertensão. Boa parte desses remédios é oferecida gratuitamente pelo SUS [Sistema Único de Saúde]. Da mesma forma, o diagnóstico da condição também é fácil, exigindo apenas a avaliação pressórica no consultório ou a indicação de exame de monitorização ambulatorial da pressão arterial”, explica o médico.
Especialistas apontam que apenas uma parcela minoritária dos pacientes consegue manter o quadro sob controle, muitas vezes precisando ingerir múltiplos compostos diariamente. “Estudos apontam que apenas 20% a 40% dos pacientes com hipertensão conseguem, de fato, manter sua pressão controlada e, para chegar a esse resultado, cerca de dois terços deles precisam tomar pelo menos duas classes de medicações diferentes”, relata Madrini. Esquecimentos e confusões com as fórmulas tornam-se comuns, especialmente entre quem lida simultaneamente com diabetes e colesterol elevado.
Inovação com pílula única
Para simplificar o cotidiano dos pacientes e evitar o abandono das prescrições, o ensaio clínico OPTION TREAT avaliou a eficácia de uma única cápsula combinando candesartana, clortalidona e anlodipino. O estudo reuniu esforços de pesquisadores do Einstein, Libbs Farmacêutica, USF (Universidade São Francisco) e Centro Universitário Cesmac.
Publicada no periódico JACC: Advances, a pesquisa destacou-se por ser a primeira no país a empregar a clortalidona em uma fórmula conjunta. “Estudos anteriores mostram que, em sua formulação simples, esse diurético tiazídico de alta potência tem eficácia amplamente comprovada no combate à pressão alta, no entanto, ainda não se conhecia seu efeito em uma combinação com outros medicamentos”, relata Vagner Madrini.
Após 12 semanas, a pressão sistólica registrou queda média de 22,6 mmHg no grupo que utilizou o novo comprimido, enquanto o grupo de controle obteve redução de 18,2 mmHg. “Logo no início houve uma queda importante da pressão, que se manteve estável ao longo de todas as semanas de acompanhamento”, detalha a cardiologista Patrícia Oliveira Guimarães, head de Ensaios Clínicos em Cardiologia na ARO Einstein. “Isso nos mostra que a resposta ao medicamento ocorre principalmente no começo do tratamento.”
Análise de subgrupos e perfis diversos
Novos desdobramentos da pesquisa, apresentados no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, examinaram se o sexo, a raça ou o risco cardiovascular influenciariam os resultados da terapia. “Mas sabemos que, hoje, há um interesse cada vez maior em analisar populações específicas que, historicamente, foram negligenciadas pelos estudos clínicos e verificar se um tratamento avaliado globalmente se mantém nesses grupos, dado que, muitas vezes, há variações de resposta conforme o organismo”, pontua Guimarães.
Nas análises por sexo biológico, as mulheres apresentaram queda média de 23,9 mmHg na pressão sistólica, contra 18,7 mmHg nos homens. Na divisão por raça, pacientes brancos, negros e pardos responderam de forma parecida, com vantagem adicional média de 5,48 mmHg em relação ao tratamento convencional. Já na vertente de risco cardiovascular, indivíduos com perfil baixo ou intermediário obtiveram redução média suplementar de 4,13 mmHg comparados aos casos mais graves.
“Em todos os casos analisados, a pressão estava alta e a terapia tripla anti-hipertensiva combinada conseguiu demonstrar uma boa resposta”, observa Patrícia Guimarães. A especialista reforça que o foco principal reside na evolução individualizada: “Concluímos que, mais importante do que comparar os diferentes grupos entre si, é comparar as pessoas com elas mesmas. No consultório, estamos diante de um paciente só, e o que importa é tratá-lo tendo em mente sua própria evolução durante o tratamento.”






