A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da corrida presidencial forçou o PL a reestruturar sua tática para a disputa das mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Embora detenha as bancadas mais expressivas em ambas as Casas, a legenda precisa do respaldo do Centrão para assegurar maiorias. No entanto, o bloco político passou a reavaliar suas parcerias diante da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e da contestação do resultado eleitoral feita por Flávio, que ocorreu sem a apresentação de provas de fraude.
Impacto das alianças na votação de pautas cruciais Manter estreita relação com o Centrão é vital para os propósitos do PL no Poder Legislativo. Mesmo com a liderança numérica na Câmara e no Senado, a sigla carece de votos suficientes para viabilizar isoladamente medidas como pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal, uma das bandeiras centrais do partido. Desse modo, o diálogo com outras siglas torna-se indispensável para consolidar o quórum necessário.
O reposicionamento do Centrão na política nacional Após o primeiro turno, legendas como Republicanos, PP, União Brasil e Podemos aproximaram-se do PL. Contudo, a reeleição de Lula motivou uma revisão dessas conexões. Os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), saíram fortalecidos, com Motta acumulando apoios para sua recondução ao posto.
As contestações de fraude levantadas por Flávio também geraram desconforto no Centrão. Enquanto União Brasil, MDB e PSDB validaram a lisura do pleito, o PDT criticou a saída do senador do país. Em nota oficial, o União Brasil, sob a presidência de Antonio Rueda, classificou a democracia como valor “inegociável” e defendeu o respeito ao resultado das urnas.
Apesar dos atritos, um dirigente da cúpula do União Brasil ouvido pelo Poder360 nesta sexta-feira (6.nov.2026) negou qualquer rompimento com o PL na disputa pelas presidências legislativas, pontuando que as siglas mantêm uma relação de respeito e diálogo, apesar das divergências nas articulações. O partido assegura respaldo à continuidade de Motta e Alcolumbre, mas avalia como legítima a candidatura de Rogério Marinho (PL-RN) ao Senado e promete respeitar a escolha do PL na Câmara.
Repercussões na Câmara dos Deputados O revés eleitoral de Flávio desmobilizou os planos iniciais do líder da bancada, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), que desde 2025 manifestava interesse em concorrer contra Hugo Motta e agora perdeu o entusiasmo em encabeçar o pleito. Atualmente, a legenda pondera entre lançar um candidato próprio ou apoiar a recondução de Motta, alternativa que encontra forte resistência interna. Na terça-feira (3.nov), o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) declarou que prefere abrir mão da presidência da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) a apoiar Motta.
Para parlamentares alinhados a essa ala, apoiar o atual chefe da Casa após sua aproximação com o governo federal e a inclusão de pautas governistas seria contraditório, somando-se a queixas sobre acordos supostamente descumpridos. Ainda assim, o PL reconhece a capilaridade de Motta, que já aglutina o apoio de 361 parlamentares — superando com folga os 257 votos exigidos para a vitória. A meta atual é negociar para preservar espaços estratégicos nas comissões.
Sóstenes adiantou que o PL reivindicará o comando de sete comissões com base na proporcionalidade partidária, incluindo a CCJ e a CMO (Comissão Mista de Orçamento), embora o regimento interno não assegure automaticamente essas presidências às maiores bancadas. Na quinta-feira (5.nov), o deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB) reiterou ao Poder360 que a oposição manterá a estratégia de lançar candidaturas próprias. A definição oficial ocorrerá em reunião da bancada marcada para 11 de novembro, em Brasília.
Estratégias e divisões no Senado Federal No Senado, onde o peso proporcional da bancada é ainda maior, o PL oficializou na quarta-feira (4.nov) a candidatura de Rogério Marinho (PL-RN) para enfrentar Davi Alcolumbre. A cúpula partidária demonstra otimismo com o apoio de parlamentares do PSD, Podemos, PP, Republicanos, União Brasil e Novo, embora o projeto exija novas rodadas de negociação.
Em paralelo, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) desponta como alternativa para setores da direita reticentes ao nome de Marinho, com estimativas de que parte do eleitorado parlamentar possa migrar para a congressista. “Marinho disse que tem mais de 30 votos, mas ele não leva em conta que parte deles, na verdade, vai para a Tereza”, avaliou um integrante do PP.
Marinho, que coordenou a campanha presidencial de Flávio, também lida com o desgaste político decorrente das declarações do senador sobre o pleito. A carta na qual o filho de Jair Bolsonaro questionava a vitória de Lula atraiu reprimendas até mesmo do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Tentando unificar a oposição, Marinho e Tereza reuniram-se na semana passada, mas o diálogo encerrou-se sem consenso.
A três meses da escolha das novas Mesas Diretoras, o PL ainda carece de musculatura numérica para garantir o comando de qualquer uma das Casas legislativas, evidenciando que o novo cenário político nacional exigirá maior flexibilidade nas composições partidárias.






