Moradores de Banabuiú, município localizado no sertão central do Ceará com cerca de 17 mil habitantes, enfrentaram longas filas e escolta policial para conseguir comprar garrafões de água mineral. A crise no abastecimento começou após comerciantes locais suspenderem as vendas devido a ameaças e tentativas de extorsão praticadas pela facção Comando Vermelho, com ordens emitidas a partir da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro.
O “Edital Banabuiú” e as exigências financeiras As mensagens com ameaças começaram a circular em 19 de outubro sob o título “Edital Banabuiú”, assinadas por uma suposta diretoria da facção carioca. Os criminosos exigiam autorização prévia para a comercialização de água e ameaçavam de graves consequências quem desobedecesse. Entre os valores cobrados estavam taxas semanais de R$ 750 para permitir a venda e cobranças por unidade de garrafão repassada aos consumidores.
Medo da população e desconfiança na rede pública Com a interrupção das vendas no comércio, os moradores ficaram sem opção para adquirir água potável, já que a água encanada fornecida pela rede pública é destinada prioritariamente a outros usos domésticos. Embora órgãos oficiais tenham garantido a qualidade do suprimento fornecido pelo Serviço Autônomo de Água e Sael (SAAE), a população evitou o consumo direto.
O diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Banabuiú, Francisco Carlos Farias, defendeu a qualidade do recurso distribuído. “É uma água tratada, uma água boa, uma água potável e de qualidade”, falou o diretor do SAAE.
Apesar da garantia institucional, moradores relataram problemas intestinais ao consumir a água do açude local. A dona de casa Antônia Conceição de Freitas desabafou sobre a situação durante o período de filas: “A água é o básico, a gente tem idoso, criança. A gente não pode beber água do açude, porque fica todo mundo com dor de barriga. Tem gente que não tem condições de ficar nessa fila. A gente quer que resolva, o que a gente não pode é ficar sem água”.
Operação emergencial de distribuição de água Para amenizar a crise, uma força-tarefa logístico-policial foi organizada com apoio da Companhia de Água e Esgoto do Estado do Ceará (Cagece) e da Polícia Militar. Cada morador passou a ter direito a adquirir garrafões de 20 litros a R$ 6 sob forte esquema de segurança. O prefeito de Banabuiú, Marcílio Coelho, confirmou a normalização do setor varejista após dias de paralisação. “Os fornecedores farão suas entregas. Então a gente pede a população que entre em contato com os seus fornecedores para pedir a sua água hoje. Às 12h estará normalizado o abastecimento de água na nossa cidade”, garantiu o prefeito.
Investigação e o papel dos mandantes cariocas As autoridades de segurança pública identificaram que o principal mandante das extorsões opera abrigado no complexo da Rocinha, utilizando ligações com DDD do Rio de Janeiro e comparsas locais para executar as ameaças. O secretário-executivo da Secretaria de Segurança Pública, Sérgio Pereira, detalhou a complexidade da captura na capital fluminense.
“Muito embora a gente tenha uma colaboração muito boa com a polícia do Rio de Janeiro, a captura dele demanda uma organização muito complexa devido ao ambiente que não favorece uma operação sem que haja o perigo de fogo amigo ou trazer algum transtorno para a população. Mas isso não impede de que a gente planeje e, como já foram feitas em outras oportunidades, a gente faça operações para capturar não só ele, mas bandidos de outros estados que também estão fazendo a mesma coisa”, disse Sérgio Pereira.
O representante da segurança pública também pontuou a dependência do líder criminoso em relação aos executores locais: “Esse mandante não tem como colocar isso em prática, ele precisa de uma pessoa que execute diretamente essas ameaças, essas arrecadações, e são essas pessoas que estavam em liberdade”.
Dez prisões e expansão das denúncias no Ceará A ofensiva policial resultou na prisão de dez suspeitos de integrar o esquema criminoso em Banabuiú. Os indivíduos possuem antecedentes por tráfico e violência doméstica, atuando na execução das ordens vindas do Rio de Janeiro. Além da cidade sertaneja, denúncias semelhantes de extorsão a comerciantes de água mineral começaram a surgir em bairros de Fortaleza, Meruoca e Caridade, acendendo um alerta em todo o estado.






