Pesquisas recentes indicam que o solo e os corpos d’água de antigos assentamentos da civilização maia sofreram com uma contaminação por mercúrio muito mais intensa e ampla do que se calculava anteriormente. O problema teve origem no uso generalizado do cinábrio, um mineral avermelhado que os povos originários valorizavam profundamente por associá-lo ao sangue, à alma e à vida, empregando-o em templos, pinturas murais, cerimônias e rituais funerários.
Investigação em sedimentos de lagos Para chegar a essa conclusão, cientistas analisaram amostras extraídas do fundo de lagos em duas localidades na península de Yucatán, no México: o famoso sítio arqueológico de Coba e a área menos explorada de Xcach.
A análise laboratorial revelou picos elevados de mercúrio em Coba a partir de 250 d.C., estendendo-se por cerca de um século e meio durante o início do Período Clássico. Em Xcach, os registros apontaram três momentos distintos de alta concentração do metal pesado, acompanhando diferentes fases da história daquela comunidade.
Impacto na fauna e na saúde Essas descoprimentos ampliam o mapa da poluição nas planícies do norte da região maia, onde faltavam dados históricos sobre o elemento químico, registrando algumas das maiores taxas de contaminação já documentadas na área.
O professor de ciências ambientais Matt Waters, da Universidade de Auburn, no Alabama, e autor principal do estudo publicado na revista Science Advances, declarou: “Nosso estudo mostra que os limites estabelecidos pelas regulamentações modernas de toxicologia e poluição foram amplamente ultrapassados nos níveis mais tóxicos durante séculos nas proximidades de Coba e Xcach”.
Waters também destacou os danos ao ecossistema local ao afirmar: “Além disso, medimos vários marcadores biológicos nos sedimentos, como bactérias, algas, cianobactérias, organismos com concha e mosquitos, que diminuíram ou desapareceram nos lagos, o que significa que o mercúrio havia se infiltrado em vários níveis da cadeia alimentar”.
Consequências para os antigos habitantes A exposição ao metal pesado pode provocar graves lesões no sistema nervoso central, além de comprometer o funcionamento do cérebro, dos rins, dos pulmões e do coração em seres humanos.
Sobre a possível intoxicação da população, a pesquisadora Savanna Wooten, coautora da pesquisa e pós-doutoranda no Jones Center, no centro de pesquisa Ichauway, na Geórgia, pontuou: “Embora não demonstremos isso em nossos registros de sedimentos, esse movimento trófico sugere que o povo maia pode ter sido exposto ao mercúrio por meio do consumo de água ou peixes”.
Apesar do forte impacto ambiental, os cientistas ponderam que o envenenamento não pode ser apontado isoladamente como a causa principal para o desaparecimento das grandes cidades no fim da era clássica. Sobre isso, Wooten concluiu: “Essa pesquisa pouco contribui para vincular diretamente o mercúrio ao declínio das cidades maias da Era Clássica. Mas acrescenta mais um fator de estresse à crescente lista de pressões ambientais e climáticas documentadas como tendo ocorrido simultaneamente com os maias do Período Clássico”.






