A professora Sâmia Nápoles, de 30 anos, estreou na Exposição Agropecuária e Industrial do Estado do Ceará (Expoece) para apresentar uma produção pouco comum no estado: um café cultivado e produzido inteiramente em solo cearense. Fundada há pouco mais de dois meses ao lado do marido e do pai, a marca Café Nápoles nasceu de um legado familiar passado entre gerações.
Tradição familiar na Serra de Aratuba
O projeto tem raízes na trajetória do avô de Sâmia, conhecido como Chico Cravo, que faleceu aos 100 anos em 2023 e deixou o pedido para que os familiares continuassem no setor ao qual dedicou sua vida inteira. Na Serra de Aratuba, situada em uma área de Mata Atlântica no Maciço de Baturité, o grupo cultiva café de sombra 100% arábica em um sistema agroflorestal, sem adição de outros grãos.
Durante o evento em Fortaleza, a expositora levou os itens produzidos no sítio da família. Além do café em grãos e moído, o público encontrou biscoitos com sabor de café e mel artesanal. O contato de Sâmia com a atividade vem desde a infância, quando aprendeu com o avô as etapas de plantio, colheita e seleção dos grãos.
“O meu avô trabalhava no terreno de outras pessoas. Se ele conseguisse duas latas de café, uma era do proprietário e uma era a dele. Ele passou muito tempo trabalhando assim até conseguir as terras para plantar. Desde então, ele tinha muito café e só sabia vender o grão. Recentemente, comecei a colocar o nosso café no mercado. Normalmente, o café do supermercado tem muitos aditivos. Então, quero mostrar para as pessoas um café do interior, de qualidade, e que respeita o ecossistema da mata de Aratuba”, explicou a empreendedora.
Processo artesanal e sustentabilidade
Embora a criação da marca tenha partido de Sâmia e de seu marido, Victor Nápoles, a rotina de cultivo envolve toda a família, contando com a experiência de anos do pai da idealizadora nos cafezais. Os pés de café crescem abrigados sob a copa de árvores centenárias da região serrana.
“A gente planta, colhe, coloca em uma bacia com água para separar os grãos defeituosos, escolhe os melhores para torrar. Também pilamos o café, tiramos a casca, colocamos no fogão a lenha. É tudo bem manual, tudo bem artesanal. O café só é produzido uma vez ao ano. A colheita dura mais ou menos um mês. Mas, para chegar à embalagem, leva cerca de três horas”, descreve Sâmia.
Os produtos são comercializados em embalagens que variam de 80g a 1kg, com preços acessíveis. Conciliando a nova rotina de negócios com a reta final da graduação em Letras, a fundadora enxerga o esforço como a realização de um sonho.
“Somos jovens empreendedores do Maciço, levando a beleza e a qualidade dos produtos que o Maciço de Baturité, a Serra de Aratuba e o Ceará têm”, resume.
Mel de abelhas nativas e perspectivas
Além do café com opções de torra clara, média e escura, a propriedade também comercializa mel de uruçu amarela, produzido por abelhas sem ferrão criadas em colmeias naturais nos troncos de árvores da mata.
“É um sistema bem agroflorestal, bem ecológico, porque a abelha vai polinizar o café e vice-versa. A gente tem algumas colmeias na própria mata, no tronco de árvores. A gente tira o mel, tampa de volta com barro ou com o galho que ficou, e ela continua no mesmo habitat. A abelha não sai do seu habitat. E ela fica no meio do cafezal, porque tem a função de polinizar o café. Então, no nosso café também tem o trabalho das abelhas”, detalha.
O modelo ecológico adotado pela família valoriza a biodiversidade local e protege o solo. Para o futuro, a expectativa é expandir os horizontes do negócio cearense.
“O Ceará tem tantas coisas boas que você não sabe, que você não conhece. Então, Aratuba, o café, o mel produzido lá, nesse sistema agroflorestal, ecológico… Você vê a qualidade, você vê a potência do Ceará em produzir e também em levar isso adiante. Quem sabe, futuramente, o café pode ir para outras regiões do Brasil”, concluiu Sâmia.






