O livro de memórias póstumo de Mário Jorge Lobo Zagallo traz detalhes emocionantes sobre a campanha vitoriosa da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, realizada no México. Na obra intitulada “As lições da Copa”, o lendário treinador relembrou como a comemoração do tricampeonato começou antes mesmo do apito final na decisão contra a Itália, vencida por 4 a 1 no Estádio Azteca.
A euforia com o gol de Gérson
Depois de um primeiro tempo equilibrado que terminou empatado em 1 a 1, com gols de Pelé e Boninsegna, o cenário mudou drasticamente na etapa final. O técnico descreveu o momento exato em que a torcida invadiu o gramado antes do término da partida: “(…) A loucura começou com o gol de Gérson. Já haviam decorrido vinte e um minutos do segundo meio-tempo. Então, a vitória parecia antecipar-se. Ninguém acreditava que a Itália tivesse mais pernas para tentar a reação. Teríamos que contar com a invasão de campo, que sucederia ao final do jogo. Mas a invasão não esperou a hora. O gol de Gérson a precipitou. Aquela gente prostrada no banco, do lado de fora, os repórteres brasileiros e até mesmo o pessoal de casa, ou os mexicanos ali na vizinhança, todos se foram pelo campo adentro. A loucura tomou conta de nós. Gérson não se conteve; chorou, ajoelhado. (…).”
Em seguida, o comandante detalhou a comoção no banco de reservas após o tento do meio-campista: “(…) Aproximei-me do grande jogador. Passei-lhe a mão pela cabeça. Vi o Chirol [médico] perto de mim; chegou correndo, aos pulos. Chirol ajoelhou-se também, também chorou ajoelhado. Acho que ambos rezavam. Eu nunca deixei de rezar antes dos jogos e na concentração. Mas, ali, só os dois rezavam. Só eles sabem o que diziam na oração, mais balbuciada que falada; mais para a alma do que para os lábios. Quanto bem faz à alma de cada um de nós a comunhão de todas as almas! Voltamos ao banco assim como se estivéssemos ungidos; leves, leves. Tive a sensação de que me evolava. Para onde estaria indo? (…).”
A tranquilidade com Jairzinho e a pintura de Carlos Alberto
Com a vantagem ampliada, o Brasil dominou a partida enquanto os italianos perderam forças. O terceiro gol, marcado por Jairzinho, afastou qualquer dúvida sobre o resultado: “(…) Eu permaneci no banco lotado, com um olho no jogo e outro no relógio. Cinco minutos depois, minutos de ansiedade terrível, Jairzinho decretou a tranqüilidade ao coração de toda a nossa gente. 3×1, sim três a um. O Imperador ajoelhou-se também; fez o sinal da cruz duas vezes, chorando. O Imperador Jairzinho encheu o mapa colorido pela nossa imaginação. Não havia mais dúvida, estava na cara que seríamos tricampeões. Os médicos que se fôssem, acaso não estivessem gostando. Já ninguém temeria enfarte. Não seria mais possível improvisar-se uma colher de chá. Mas a cachaça, se alguma houvesse ali perto, que se prevenisse. (…).”
A apoteose definitiva veio aos 41 minutos do segundo tempo, coroando uma das maiores atuações coletivas da história do futebol em jogada que passou por Tostão, Clodoaldo, Rivellino, Jairzinho, Pelé até chegar ao capitão Carlos Alberto Torres: “(…) Íamos ao final do jogo; só quatro minutos restavam. Eis quando Carlos Alberto, numa daquelas suas jogadas típicas, incumbiu-se do desfecho de ouro. Ele veio como uma pá de cal jogada no time italiano. Ninguém acreditava mais no quarto gol. Quatro tentos violaram aquela defesa tida e havida como a melhor do mundo, que havia deixado fama de ser inexpugnável nos jogos anteriores da Copa. Tudo correu de forma brilhante para a nossa Seleção. O final não poderia deixar de ser apoteótico, embora a apoteose houvesse custado muitas lágrimas, mas como se torna gostoso ver a gente chorar de emoção intensamente jubilosa! (…)”, registrou o comandante.
O contraste emocional do “Velho Lobo”
Apesar de já ter levantado a taça como jogador em 1958 e 1962, conquistar o mundial do banco de reservas gerou uma reação inesperada no treinador: “(…) As comemorações recrudesceram. Todo mundo cantava, pulava e vibrava numa confusão infernal. Mas comigo ocorreu o oposto. Muito havia chorado, em 1958 e 1962, sendo natural que voltasse a chorar sem medida. Não havia como! Sentia um nó na garganta e outro no peito. Nem o contágio da choradeira em volta servia-me de provocação. Não tinha como desabafar, apesar de sentir que alguma coisa me faltava: o choro. Aquela seria a minha hora de pôr para fora tudo que minha alma havia engolido. Tive peito para colocar minha carreira em xeque ao aceitar o comando da seleção, mas o peito faltou-me ali; não me deixou chorar. (…).”
Zagallo assumiu o comando técnico da seleção brasileira a apenas 78 dias da estreia contra a Tchecoslováquia, substituindo João Saldanha. Com pulso firme e ajustes táticos precisos, ele conduziu o país à posse definitiva da taça Jules Rimet.






