As manobras arriscadas da Esquadrilha da Fumaça exigem sincronia milimétrica e rigor técnico para garantir a integridade dos pilotos e do público durante as apresentações aéreas.
Segredos do voo invertido e limites do A-29 Super Tucano O A-29 Super Tucano é o modelo responsável pelas acrobacias, mas realizar manobras de cabeça para baixo exige modificações estruturais profundas na aeronave. O capitão André Nery Lima Bezerra, de 35 anos, afirmou que não é todo avião que é projetado, por exemplo, para voar de cabeça para baixo.
“Nem toda asa [de avião] é capaz de, estando de cabeça para baixo, gerar a sustentação necessária para garantir o voo da aeronave, então a estrutura da asa tem que ser projetada e desenhada para que, de cabeça para baixo, ela consiga gerar a sustentação que vai fazer a aeronave voar”, explicou.
Além da aerodinâmica, o sistema de combustível precisa de adaptações para funcionar sem interrupções durante a inversão. “É importante que o tanque de combustível possa coletar combustível ao invés de na parte debaixo, igual ao tanque do carro, na parte de cima do tanque porque, quando o voo inverte, o líquido vai inverter de lado, então ele vai para a parte de cima e tem que ter um coletor de combustível.”
O manual da aeronave também estabelece restrições operacionais rígidas para preservar o motor e os sistemas. Segundo ele, o manual da aeronave aponta informações sobre as limitações. “A nossa, por exemplo, apesar de voar muito bem e ser extremamente manobrada de cabeça para baixo, ela não pode voar infinitamente daquela forma, existe um tempo limite.”
No caso do A-29, esse intervalo máximo é de 60 segundos por questões de arrefecimento e lubrificação, e não por limitações aerodinâmicas. “Não é um limite que existe por questões aerodinâmicas ou de funcionamento do motor, está mais relacionado com arrefecimento, com lubrificação dos sistemas.”
Formação rigorosa e proximidade extrema entre as aeronaves Durante as demonstrações, sete aviões voam agrupados a distâncias mínimas, o que demanda precisão absoluta e memória muscular desenvolvida através de anos de prática na mesma posição de voo. “A nossa aeronave, em muitos momentos, voa a menos de dois metros da aeronave que está do lado e a menos de três metros da que está à frente. Então, os aviões voam muito agrupados e, mais uma vez, a margem de erro é praticamente zero nesses momentos”, explicou.
Para manter essa estabilidade sem o auxílio de sistemas eletrônicos de alinhamento, os aviadores dependem exclusivamente de referências visuais na própria fuselagem. “O que faz a gente manter a posição de forma estável, cravada, precisa, são os nossos olhos e as referências que a gente usa.”
“São coisas que estão ali na fuselagem, então a gente alinha uma parte da asa com alguma coisa específica na pintura, a gente faz uma sobreposição de uma peça da aeronave com uma mudança de faixa, faixa amarela junto com a faixa azul, se eu alinhar a ponta da asa com aquela faixa, eu estou na posição precisa. Então, essa pintura bonita da Esquadrilha da Fumaça, ela também tem um recurso técnico que ajuda a gente a obter referências visuais para manter a posição durante a demonstração”, complementou.
Assentos ejetáveis e equipamentos de proteção contra a força G Em situações de emergência extrema, os pilotos contam com assentos ejetáveis capazes de operar inclusive com a aeronave no solo. “É um dispositivo que, literalmente, expulsa de forma exclusiva todo o conjunto do assento juntamente com o piloto do avião para que ele possa retornar ao solo em segurança. Quando a gente fala que um assento é zero zero, o que a gente está dizendo é que o assento pode ser acionado com zero velocidade e zero altitude, ou seja, basicamente com o avião parado no chão”, disse.
O militar destacou que o sistema atual representa uma grande evolução em relação ao modelo anterior utilizado no T-27 Tucano. “É uma evolução que traz ainda mais segurança tanto para o piloto quanto para o público que está ali assistindo a demonstração”, afirmou.
Para suportar a intensidade das manobras acrobáticas e a alta carga gravitacional, os aviadores utilizam trajes especiais e contam com uma cabine mais avançada no A-29. “Além de mais rápida, a aeronave é mais precisa e, principalmente, mais segura porque tem muito mais recursos disponíveis para o piloto durante o voo. É uma cabine maior, uma cabine mais confortável, tem um sistema anti-G que ajuda o piloto a suportar manobras com a força G, a carga gravitacional maior, durante essas manobras”, concluiu.






