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Ex-coronel uruguaio condenado por crimes na ditadura é preso no RS

Ex-coronel uruguaio é preso no RS por crimes na ditadura

A Polícia Federal efetuou a prisão do ex-coronel uruguaio Pedro Antônio Narbondo Mato, conhecido como “El Burro”, em Sant’Ana do Livramento, no Rio Grande do Sul. O ex-militar acumula uma condenação à prisão perpétua emitida pela Justiça da Itália devido à sua participação em torturas e homicídios de opositores políticos durante a Operação Condor, rede de repressão coordenada entre as ditaduras sul-americanas nas décadas de 1970 e 1980.

Operação de captura na fronteira O mandado foi cumprido enquanto o alvo aguardava o conserto de seu automóvel em uma oficina mecânica na cidade gaúcha situada na linha divisória com o Uruguai. Curiosamente, décadas atrás, Narbondo havia atuado no centro clandestino conhecido como “Automotores Orletti”, uma antiga oficina em Buenos Aires adaptada pelos militares para sequestrar, torturar e assassinar militantes.

A conversão da pena e o impacto histórico Esta movimentação jurídica marca a primeira ocasião em que o judiciário brasileiro determina a prisão de um indivíduo condenado por abusos de direitos humanos cometidos durante o regime militar. Como a legislação do país não contempla a pena perpétua, a sanção italiana foi adaptada para 30 anos de reclusão.

O subprocurador Artur Gueiros destacou o impacto histórico da medida. “Podemos dizer para os nossos filhos, para os nossos netos: agora no Brasil existe alguém que está pagando pelos crimes da ditadura.”

Em relação à estratégia jurídica adotada pelo ex-militar, o subprocurador detalhou: “O que o Narbondo fez? Pediu à Justiça Federal brasileira que fosse reconhecida a sua cidadania brasileira… A Constituição brasileira proíbe a extradição de brasileiros natos. Então, ele contou com a esperança de que ficaria impune”, explicou o subprocurador.

Investigação internacional e o papel das vítimas Entre as vítimas associadas ao ex-coronel está o jovem metalúrgico Bernardo Arnone, que desapareceu em 1976 na capital argentina aos 24 anos após buscar exílio político. Sua irmã, Cristina Arnone, recorda o último momento em que viu o parente: “Ele saiu de casa às 7h30. Disse que voltaria ao meio-dia. E não voltou mais.”

A apuração ganhou força em 1999 com o acionamento dos tribunais italianos por parte dos familiares. O procurador Giancarlo Capaldo ressaltou a importância da irmã da vítima: “Cristina foi uma das mais ativas nas investigações. Conhecia muito bem os fatos. E me ajudou a compreendê-los.”

O paradeiro do foragido foi descoberto anos depois graças a postagens da esposa em redes sociais durante uma viagem ao Nordeste. O ativista Jair Krischke, fundador do MJDH, repassou a localização exata: “Olha, o réu vive em Sant’Ana do Livramento, na rua tal, número tal.”

Sobre a articulação repressiva da época, Krischke pontua que a Operação Condor consistiu na “reunião de aparelhos repressivos dos países da região para capturar aqueles que se opunham às ditaduras estabelecidas”.

Desdobramentos judiciais e prisão domiciliar Após a condenação na Itália e com base no precedente do caso Robinho, o governo italiano solicitou a execução da pena no Brasil em 2022.

A defesa informou que o réu apresenta “saúde debilitada” e planeja recorrer ao Supremo Tribunal Federal, alegando prescrição e a aplicação da Lei da Anistia. Após passar poucos dias na penitenciária local, Narbondo obteve autorização judicial para cumprir prisão domiciliar.

Para os familiares de Bernardo Arnone, o desfecho coroa cinco décadas de mobilização. “Bernardo militou politicamente porque acreditava na luta por um mundo melhor. Depois de 50 anos de batalha, nós conseguimos”, celebrou a irmã.

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