As principais empresas de tecnologia do mundo estão destinando quantias recordes para impulsionar a corrida pela inteligência artificial, mas o cenário tem gerado forte apreensão no mercado financeiro. Os aportes bilionários na área passaram a preocupar os acionistas, que cobram prazos claros para que todo esse capital injetado comece a se converter efetivamente em lucros.
Queda histórica na bolsa Após a divulgação de seus balanços trimestrais, os papéis da Alphabet, controladora do Google, sofreram um tombo de 12,64% em uma única sessão, registrando a pior derrocada diária da companhia desde sua estreia na bolsa, em 2004. O levantamento da consultoria Elos Ayta apontou que a desvalorização fez a empresa perder US$ 493,9 bilhões em valor de mercado em apenas um pregão, montante que supera a metade de toda a bolsa brasileira.
O impacto se espalhou por Wall Street e atingiu outras companhias do setor. A Amazon registrou queda de cerca de 7%, eliminando quase US$ 200 bilhões de seu valor de mercado. Somadas, Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft viram quase US$ 900 bilhões evaporarem após a publicação de seus resultados do terceiro trimestre. O índice Nasdaq fechou em forte baixa, atingindo seu patamar mais baixo em quase três meses.
Perdas bilionárias para fundadores A desvalorização generalizada das empresas de tecnologia também provocou uma forte redução no patrimônio dos homens mais ricos do mundo, cujas fortunas estão diretamente atreladas às ações de suas companhias.
Dados do Bloomberg Billionaires Index mostraram que Larry Page e Sergey Brin, cofundadores do Google, sofreram uma perda conjunta de US$ 60,7 bilhões em um só dia. Enquanto isso, Jeff Bezos, criador da Amazon, teve uma retração estimada em US$ 9,48 bilhões em seu patrimônio, elevando as perdas combinadas dos três bilionários para US$ 70,18 bilhões.
Custos disparados e caixa no vermelho Os relatórios financeiros mostram que a infraestrutura para sustentar os avanços em inteligência artificial consome recursos em ritmo inédito. Estimativas indicam que Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet elevaram os aportes em infraestrutura de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões em um ano, com projeções de alcançar a marca de US$ 740 bilhões até 2026 para a construção de centros de dados e aquisição de chips.
Além disso, dados da Reuters revelam que, nos primeiros nove meses do ano, cinco grandes corporações do setor investiram juntas US$ 556,9 bilhões, superando os US$ 542,9 bilhões gerados por suas operações. Esse descompasso levou o fluxo de caixa livre do grupo para um saldo negativo de US$ 14 bilhões.
“O mercado continua confiante na demanda por inteligência artificial, como mostram os resultados crescentes da área de computação em nuvem. Mas os investidores passaram a cobrar mais das empresas: não basta anunciar grandes investimentos em IA, é preciso mostrar que eles estão se transformando em receita e, principalmente, em geração de caixa”, afirma Nickolas Lobo, especialista de investimentos da Nomad.
“São bilhões de dólares destinados a centros de dados, chips e infraestrutura, enquanto a capacidade de transformar tudo isso em receita ainda está sendo construída”, diz Celso Camilo, doutor em inteligência artificial e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Busca por empréstimos e debate sobre bolha Para bancar o ciclo de expansão, que inicialmente era sustentado por recursos próprios, as companhias passaram a emitir dívidas e novas ações, a exemplo da Microsoft, que levantou US$ 25 bilhões em títulos.
Apesar do pessimismo momentâneo e do temor de uma bolha especulativa, especialistas ponderam que a tecnologia possui aplicações reais e consolidadas, mas alertam que o desafio atual reside na capacidade de monetização das empresas.
“A tecnologia é real, já está sendo utilizada e tem capacidade de transformar diversos setores da economia. O que considero exagerado são algumas expectativas de valorização”, afirma Celso Camilo.
“O vencedor da próxima etapa não será necessariamente quem investe mais, mas quem gera retorno sobre o capital investido”, conclui Nickolas Lobo.






