Um registro inédito na cidade mineira de Conceição dos Ouros revelou pela primeira vez o ninho da tovaca-cantadora (Chamaeza meruloides), uma ave silvestre endêmica do Brasil e reconhecida por seu comportamento arisco. A descoberta histórica foi feita em setembro pelo biólogo e guia de observação Wagner Loureiro, trazendo à tona informações até então desconhecidas sobre a biologia reprodutiva da espécie que habita a Mata Atlântica.
Descoberta após queda de árvore
O achado aconteceu de maneira casual. Depois de utilizar técnicas de ceva com oferta de quirela para atrair a ave a uma área aberta, o pesquisador notou que o local de observação habitual havia sofrido danos devido à queda de uma árvore.
Ao limpar um novo espaço ao lado da área atingida junto com a esposa, Luzete Amaral, a surpresa aconteceu a apenas quatro metros de distância. A fêmea se aproximou tranquilamente, coletou folhas de taquara e entrou em um oco de árvore a cerca de 3,5 metros de altura, momento que foi integralmente documentado pela dupla.
“Ficamos muito tristes com esse ocorrido, então decidi limpar um novo espaço de ceva ao lado da área que foi atingida. Colocamos quirela e em pouco tempo ela se aproximou, e ficou muito tranquila no meio da trilha. Nós a observamos a quatro metros de distância, foi então que percebemos que ela também caçava no chão. Ela pegou uma folha de taquara, e repetiu esse comportamento e começou a caminhar pelo lado da trilha, e entrou em um oco da árvore que estava a cerca de 3,5 metros de altura. Vibramos muito com esse achado”, detalha o biólogo.
Relevância para a ciência
O material fotográfico e os relatos foram enviados para a plataforma WikiAves, onde o banco de dados com quase 800 registros da espécie ainda não contava com imagens de ninhos. Para o especialista, a mudança de postura da ave durante o ciclo demonstra uma fase mais dócil em busca de alimento fácil.
“A tovaca-cantadora é uma ave bem arisca, mas durante o período reprodutivo ela se mostrou muito dócil, vinha tranquilamente na ceva, se mostrava sem que houvesse necessidade da gente se esconder em uma casinha de mata. Eu pude observar que o comportamento dela nesse ciclo é muito bom, pois ela sai na ceva em busca de alimento fácil e com mais facilidade”, acrescenta Wagner.
A coleta de folhas secas de taquara observada na “porta” da cavidade reforça os indícios sobre a construção do local de reprodução. Como a literatura científica sobre o tema é escassa, os dados coletados no interior mineiro ganham enorme peso para futuras pesquisas de preservação ambiental.
“Do ponto de vista científico, a descoberta é relevante porque informações sobre ninhos, períodos de reprodução, escolha do local e cuidados com os filhotes ajudam pesquisadores a compreender melhor a biologia da espécie. Esses dados podem contribuir para identificar ameaças, acompanhar mudanças nas populações e orientar ações de conservação mais eficiente. Registros feitos em campo também ampliam o conhecimento sobre a distribuição da tovaca-cantadora e podem servir de base para novos estudos”, afirma.
Características da espécie
Com cerca de 19 cm de comprimento, a Chamaeza meruloides possui plumagem em tons castanhos e ventre esbranquiçado com rajados escuros. O nome popular faz referência direta ao canto potente e incansável, que torna o animal muito mais fácil de ser ouvido do que avistado na densa vegetação do sub-bosque.
Para o biólogo, que registrou os primeiros sons do animal na cidade em 2014 e as primeiras fotos quatro anos depois, a presença contínua da espécie evidencia a qualidade ambiental da região.
“Sua presença no município tem importância não apenas pela beleza de seu canto e pelo desafio que representa para os observadores de aves, mas também por valorizar a diversidade biológica dos remanescentes florestais locais. Por depender de condições específicas do ambiente florestal, a espécie chama a atenção para a necessidade de preservar matas com vegetação bem desenvolvida, solo protegido pela serrapilheira e disponibilidade de alimento”, finaliza.






