O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou um avanço de 2,1 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno nas 2.647 cidades brasileiras onde o número de beneficiários do Bolsa Família supera a quantidade de trabalhadores com carteira assinada. Esse incremento representou quase metade da vantagem total de 4,4 milhões de sufrágios que garantiu a vitória do petista sobre Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial de 2026.
Antecipação de repasses e mensagens em massa O Brasil possui 5.569 municípios, sendo que em 2.647 deles a dependência do programa social é superior aos empregos formais. A apenas 17 dias do primeiro turno, Lula anunciou um reajuste de 15% no valor do benefício, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691. Embora os pagamentos atualizados estivessem previstos para o final de outubro, o Palácio do Planalto optou por antecipar todas as transferências para antes da votação, além de disparar milhões de mensagens via WhatsApp para os 19,3 milhões de cadastrados.
Questionado em entrevista à TV Globo no dia 15 de outubro sobre o caráter eleitoreiro da medida, Lula declarou que não deu o reajuste antes porque “não sabia” que o programa havia ficado 3 anos com o valor congelado.
Desempenho eleitoral nas zonas de maior dependência Nos redutos com maior concentração do auxílio, Flávio Bolsonaro obteve 32,14% dos votos válidos na primeira etapa e caiu para 31,88% no segundo turno, uma retração de 0,26 ponto percentual. Em contrapartida, Lula saltou de 62,97% para 68,12% nesses locais.
Em termos absolutos, o atual chefe do Executivo passou de 18,4 milhões para 20,5 milhões de apoios nessas localidades. Já o senador do PL foi de 9,4 milhões para 9,6 milhões, um acréscimo de 195 mil votos. Com a queda na abstenção — que passou de 20,1% para 19,4% —, o parlamentar ficou praticamente estagnado percentualmente, canalizando a maior parte dos novos eleitores para a base petista. Lula venceu em 2.287 desses municípios na segunda rodada, enquanto o adversário triunfou em 359, com um empate registrado em Marquinho (PR).
Erros de campanha e o impacto das narrativas A estagnação do candidato do PL nas regiões mais vulneráveis também foi influenciada por embates de narrativa. A coordenadora econômica da campanha de Flávio, Daniella Marques, defendeu a criação de uma regra de transição de dois anos para beneficiários que conseguissem emprego formal ou abrissem um negócio. O áudio foi amplamente divulgado por petistas nas redes sociais com a tese de que a proposta cortaria o auxílio à força, gerando forte repercussão negativa antes que os aliados pudessem esclarecer a medida.
No debate da TV Globo, Lula explorou o desgaste ao questionar o oponente sobre uma publicação antiga em que chamava o programa de “Bolsa Farelo”, tema que o senador evitou aprofundar. Vídeos de opositores, como o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) criticando a situação no Nordeste, também movimentaram o debate digital, embora avaliações apontem que a estratégia não surtiu o efeito desejado pela oposição para frear o lulismo na região.
Comparativo com 2022 e o cenário nacional Apesar da perda de fôlego no segundo turno de 2026, Flávio Bolsonaro registrou um desempenho ligeiramente superior ao de seu pai, Jair Bolsonaro, nas mesmas cidades dependentes do Bolsa Família em 2022, quando o ex-presidente obteve 30,73% dos votos válidos contra 31,88% do filho — uma alta de 1,15 ponto percentual e um ganho de 1,1 milhão de votos absolutos.
O pleito de 2026 mobilizou 158,7 milhões de eleitores aptos. Após a definição de governadores e parlamentares no dia 4 de outubro, o segundo turno em 25 de outubro selou a vitória de Lula e reconfigurou o mapa político do país, impulsionado por uma queda inédita na abstenção e por uma forte articulação nas regiões historicamente alinhadas ao petismo.






