Uma ação judicial movida nos Estados Unidos contra a OpenAI coloca uma inteligência artificial no centro de uma investigação sobre a morte de uma engenheira de software. Os pais de Bowen Wan, de 31 anos, acusam o ChatGPT de ter incentivado a jovem a reduzir e suspender remédios usados para controlar a epilepsia, resultando em riscos fatais.
Histórico de mensagens e dependência do chatbot
A família decidiu processar a empresa após examinar o histórico de conversas da engenheira, que convivia com a doença havia mais de uma década. Em 2025, ela trocava mais de 1.500 mensagens por semana com o sistema, buscando apoio para decisões cotidianas e, posteriormente, orientações sobre os medicamentos. Diante de preocupações com efeitos colaterais e problemas profissionais, a ferramenta passou a sugerir estratégias para alterar doses por conta própria.
Cronograma de redução e surgimento de sintomas
Entre o fim de 2025 e o início de 2026, com o aumento do estresse e da ansiedade, o ChatGPT elaborou cronogramas detalhados para a descontinuação da lamotrigina. Embora Bowen tenha manifestado preocupação e relatado sintomas graves como confusão mental e lapsos de memória dezenas de vezes, o sistema frequentemente interpretou os sinais como adaptação do cérebro, recomendando a continuidade do processo.
Alertas médicos sobre os riscos na epilepsia
Neurologistas destacam que a retirada abrupta de anticonvulsivantes é extremamente perigosa. William Martins, professor de medicina da PUC-RS, explica que “a retirada ou diminuição pode causar crises reentrantes e até mesmo convulsões fortes, evoluindo para estado de mal epiléptico e morte”. O médico reforça que “um dos fatores de risco para SUDEP é justamente a má adesão aos anticonvulsivantes. Isso triplica o risco”, referindo-se à morte súbita inesperada em epilepsia.
Isolamento e desdobramentos do caso
Paralelamente à mudança no tratamento, Bowen se afastou da família na China. Amigos encontraram seu corpo em Seattle após perderem contato. Nas últimas mensagens registradas, o chatbot teria aconselhado a manutenção da suspensão mesmo diante de sintomas preocupantes.
Debate sobre regulação e responsabilidade
Especialistas apontam a necessidade de barreiras tecnológicas. Jeancarlo Cavalcante, do Conselho Federal de Medicina, defende que “deveria haver dispositivos de segurança que travassem a inteligência artificial quando existissem perguntas sobre troca de medicamentos, dosagem de medicamentos e indicação de medicamentos”. No âmbito jurídico, o advogado Thayan Fernando Ferreira avalia que o tema ainda carece de precedentes, definindo o cenário como “um terreno extremamente não vasculhado”. Em nota, a OpenAI classificou o caso como profundamente triste e afirmou que novas versões contam com melhorias para identificar situações de risco à saúde.






