Um levantamento inédito com base nos microdados do Exame Nacional do Ensino Médio de 2025 revelou que uma parcela expressiva de alunos matriculados em escolas particulares errou questões consideradas de menor grau de dificuldade. O estudo, realizado pela Geekie Educação, apontou que em três das quatro áreas do conhecimento avaliadas, mais de 4 em cada 10 estudantes da rede privada não conseguiram alcançar a resposta correta em itens classificados entre os mais fáceis da prova.
O maior índice de erros em questões de baixa complexidade foi documentado em Ciências da Natureza, onde 45,67% dos participantes da rede privada erraram. Em Ciências Humanas, o patamar atingiu 43,9%, enquanto em Linguagens a taxa de erros chegou a 43,63%. Já na disciplina de Matemática, o percentual de respostas incorretas em um dos itens selecionados foi de 32,84%.
Desempenho geral e proporção de participantes
Apesar de o relatório apontar que os alunos da rede privada obtiveram taxas de acerto superiores na comparação com os estudantes da rede pública nas quatro questões destacadas, os números chamam a atenção para falhas em pontos considerados acessíveis. A análise englobou o desempenho de 240.131 estudantes de colégios particulares e 934.103 alunos de escolas públicas, totalizando 1.174.234 participantes do Enem 2025.
O alto volume de equívocos em perguntas simples ganha relevância devido ao modelo de correção do exame, que prioriza a consistência nas respostas por meio da Teoria de Resposta ao Item. O sistema avalia a coerência do candidato, fazendo com que acertos em perguntas fáceis e médias tenham peso superior em relação ao acerto isolado de questões difíceis.
“Na TRI, não há uma pontuação fixa por questão. [A pontuação] Vai depender do conjunto de questões que o estudante acertou. Ela é, basicamente, teoria ‘antichute’ que consegue medir se o estudante está acertando ao acaso, se chutou o acertou de forma aleatória”, explica Silvia Brandão, especialista em Linguagens da Arco Educação.
Interpretação e armadilhas nas diferentes áreas
Especialistas apontam que a dificuldade em resolver itens básicos nem sempre está associada à falta de conhecimento teórico, mas sim a problemas na interpretação do contexto, na leitura do enunciado e na conexão entre as informações fornecidas. Na prova de Linguagens, por exemplo, a questão 31 do caderno azul exigia a análise de um texto sobre a interferência das tecnologias na comunicação interpessoal, resultando em 43,63% de erros.
Segundo Silvia Brandão, muitos candidatos acabaram se apegando a conceitos isolados em vez de compreender a proposta global do texto, caindo no principal distrator da alternativa C, enquanto a resposta correta constava na alternativa D. A especialista ressalta que o desafio residia em decodificar o sentido atribuído a uma palavra dentro daquele contexto específico.
No caso de Matemática, a questão 179 do caderno azul registrou 32,84% de erros ao exigir a identificação da unidade de medida da iluminância. Conforme aponta Lilian Farias, especialista de Sucesso Pedagógico da Geekie Educação, a ausência de cálculos complexos surpreendeu os alunos, que muitas vezes se intimidam com a formatação das alternativas.
“Quando você bate o olho nessa questão, algumas coisas podem te assustar. A primeira delas é, não tem nada para calcular. Depois, você olha para as alternativas. E aí, tem várias expressões matemáticas”, afirma.
Filosofia moral e leitura de dados
Em Ciências Humanas, a questão 65 abordou o tema da filosofia moral e exigiu a associação entre uma narrativa e o conceito de altruísmo, resultando em 43,9% de erros na rede privada. De acordo com Vinicius Barcala, especialista de Ciências Humanas da Geekie Educação, a busca precipitada por palavras-chave prejudicou o desempenho dos candidatos.
“O caminho está em entender o relato e conectar ao conceito”, explica Vinicius Barcala, alertando que elementos periféricos do texto, como o uso de um apelido familiar contendo a palavra “animais”, serviram para desviar a atenção do conceito filosófico central exigido pelo exame.
Por fim, em Ciências Natureza, a questão 102 liderou os índices de erro entre os recortes analisados, com 45,67% de respostas incorretas. Luiz Felipe Mod, especialista de Sucesso Pedagógico da Geekie Educação, enfatiza que a disciplina vai muito além da memorização de teorias de Física, Química e Biologia.
“Nessa disciplina, não basta saber os conteúdos de Física, Química e Biologia. A prova também exige que você saiba ler fórmulas, gráficos, tabelas, unidades e as informações que o próprio enunciado oferece”, afirma.






