Autoridades policiais e o Ministério Público apontam possíveis crimes de natureza cível e criminal na circulação de relações virtuais que incentivam o boicote a comerciantes e marcas associados ao apoio eleitoral ao presidente Lula. O material começou a ser disseminado em redes sociais e aplicativos de troca de mensagens logo após o término do segundo pleito eleitoral de 2026, atingindo ao menos dez cidades do interior paulista, incluindo Ribeirão Preto, Serrana, Sertãozinho, Franca, Brodowski, Altinópolis, Santa Rosa de Viterbo, Bebedouro, Barretos e Cajuru.
Entendimento jurídico e riscos de punição
As postagens instruem os consumidores a deixarem de adquirir mercadorias, contratarem serviços ou manterem qualquer relação comercial com os alvos das publicações. De acordo com o promotor de Justiça Carlos Cezar Barbosa, atuante nas frentes de direitos humanos e inclusão social na comarca local, a prática configura o crime contra a honra conhecido como injúria.
“Injúria porque aquele que fez a divulgação, aquele que divulgou a lista e aquele que compartilhou a lista, está se colocando de uma forma supremacista sobre aquele que está figurando na lista. Ou seja, ele quer ofender aquele que está figurando na lista como se fosse uma pessoa menor, como se fosse uma pessoa de categoria menor do que a dele”, explicou.
Além da esfera penal, o membro do Ministério Público destacou que a Polícia Civil dispõe de ferramentas técnicas para rastrear a origem das postagens e identificar os responsáveis. Prejuízos financeiros decorrentes da exposição indevida também abrem margem para reparações financeiras:
“É objeto de indenização por danos materiais. Ele sofreu uma perda de receita por conta de figurar numa lista dessa natureza”, afirmou o promotor.
Clima de intimidação no comércio local
O surgimento desses diretórios virtuais provocou um cenário de insegurança entre empreendedores e equipes de trabalho. Em Serrana, o empresário Francisco Meghelli, dono de uma imobiliária, lamentou ver seu negócio exposto após manifestar preferência política.
“É uma tentativa de intimidação gigantesca, porque a ideia dessa lista é fazer com que a pessoa que pensa diferente de você se cale e isso não pode ser aceito de forma alguma”, disse, reforçando a necessidade de tolerância ideológica. “Eu tenho uma opinião política, outra pessoa tem outra opinião e mesmo eu não concordando com a opinião do outro, eu preciso respeitar a pessoa”, acrescentou.
Na mesma localidade, o comerciante Junior Andrade relatou episódios de hostilidade direcionados ao seu estabelecimento de açaí, mesmo sem ter manifestado alinhamento partidário. A cabeleireira Ana Paula da Silva e a veterinária Elaine Cristina Sobral, de Brodowski, também relataram receio e ressaltaram que a preferência eleitoral nunca interferiu na prestação de seus serviços profissionais.
Posicionamento de entidades setoriais
Representantes do setor produtivo regional emitiram notas de repúdio severas contra as investidas motivadas por divergências político-partidárias. A Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto (Acirp) pontuou que a diversidade de opiniões não deve ser instrumentalizada para hostilidades.
“A divergência de pensamento não deve ser transformada em instrumento de hostilidade, constrangimento ou desqualificação de empresários e estabelecimentos comerciais que pensam de maneira diferente”, destacou a instituição.
O Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto e Região (Sincovarp), que atua em dezenas de municípios vizinhos, enfatizou que o foco deve residir na superação das rivalidades em prol da economia local:
“A eleição acabou, o resultado das urnas precisa ser respeitado e o comércio tem de olhar para frente. Iniciativas que provocam divisões não agregam nada. Só vamos conseguir superar nossos desafios se nos mantivermos fortes e unidos, por meio do diálogo, bom senso e do equilíbrio”, reforçou a entidade mercantil.






