A busca por dados e notícias no século 21 evidenciou o desafio de navegar entre o excesso e a escassez de conteúdos. Durante a crise sanitária da covid-19, essa dinâmica revelou que informar-se vai muito além da qualidade do debate público, tornando-se uma questão de participação social e sobrevivência.
O conceito de permacrise e o cenário brasileiro
Uma pesquisa recém-divulgada pela Unicamp analisou as condições de produção e consumo de notícias no primeiro ano da pandemia no país. O estudo introduziu o conceito de permacrise para definir um estado persistente de instabilidade gerado pelo entrelaçamento de diferentes crises, reforçando que o fenômeno global foi vivenciado de maneiras distintas em várias regiões do planeta.
As barreiras para a conexão digital no país intensificaram essa desigualdade. Em 2021, quase metade dos acessos à internet no Brasil ocorria por meio de celulares com planos pré-pagos, o que condicionava a busca por orientações e notícias à capacidade financeira de pagar por dados móveis. Esse cenário de restrição tecnológica coincidiu com o avanço de um apagão jornalístico, marcado pelo encerramento das atividades de centenas de veículos de comunicação ao longo das últimas décadas.
A subversão do modelo de comunicabilidade
As plataformas digitais consolidaram a promessa de uma rede descentralizada, contrapondo-se ao modelo de comunicabilidade unidirecional, linear e autoritário no qual a produção e a distribuição de notícias ficavam restritas a poucas e tradicionais instituições.
No entanto, a expansão tecnológica não eliminou a centralidade, apenas ocultou seus mecanismos. A circulação de conteúdos passou a ser mediada por regras comerciais e sistemas algorítmicos que determinam o que ganha visibilidade. Essa subversão transfere aos indivíduos a responsabilidade pela verificação dos dados, criando um ambiente que parece aberto, mas que continua controlado por interesses comerciais.
A concentração desse poder em poucas empresas estrangeiras afeta diretamente o debate público nacional. Como os algoritmos participam ativamente da definição das condições de circulação dos discursos, eles podem amplificar desigualdades e produzir efeitos discriminatórios, influenciando o direito constitucional à informação.
Informação como política pública
Tratar a qualidade do ambiente informacional apenas como uma responsabilidade individual desresponsabiliza as grandes empresas de tecnologia. Em um regime democrático, o direito à informação exige condições adequadas para que o conteúdo alcance os cidadãos, seja confrontado com fontes confiáveis e permaneça acessível em seu contexto real.
Para fortalecer o ecossistema informativo nacional e combater a formação de desertos de notícias provocados pela escassez de políticas públicas para o setor, torna-se essencial apoiar não apenas os veículos tradicionais, mas também universidades, iniciativas científicas, projetos independentes e organizações comunitárias. Afinal, a garantia de uma sociedade democrática depende diretamente das condições informacionais que sustentam as escolhas da população.






