Goiânia celebra 93 anos neste sábado (24), carregando em sua história detalhes fascinantes e pouco conhecidos sobre a transferência da sede do governo goiano. A trajetória da capital envolve desde um concurso popular para definir o nome até episódios de intensa tensão política e ameaças contra os idealizadores do projeto.
Resistência e ameaças na mudança da capital Segundo a escritora, historiadora e urbanista Maria Narcisa de Abreu, a transição enfrentou oposição ferrenha de moradores e políticos da antiga cidade de Goiás. A pressão foi tão marcante que um prédio precisou ser erguido em caráter de urgência na Avenida Tocantins com a Rua 12, no Centro, para abrigar a assinatura do decreto de transferência definitiva. O local abrigou a primeira sede da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego).
“Esses personagens recebiam até bilhete de ameaça de morte. Eu senti isso depois de uma visita que fui fazer a Goiás em pesquisa, porque aí que eu senti o peso, a luta que eles tinham contra a mudança da capital”, destacou Narcisa.
A escolha inusitada do nome O batismo da cidade passou por uma disputa curiosa em 1933, promovida por um concurso do jornal “O Social”. Duas alternativas principais se destacaram: Petrônia, que homenageava Pedro Ludovico, os imperadores Dom Pedro I e II e o apóstolo Pedro; e Goiânia, sugerida pelo professor Alfredo de Faria Castro com o significado de “Nova Goiás”.
Embora o nome Petrônia tenha vencido o pleito com mais de 100 votos contra apenas 10 da opção vencedora final, o interventor optou por Goiânia. O pesquisador José Ubirajara Galli Vieira aponta que a decisão refletiu a postura modesta do líder político.
“Ele não era assim. Era idealista e, sobretudo, de um senso de honestidade que bate o século, como um exemplo fantástico de retidão, honestidade. Então eu acredito que daí veio essa opção de Goiânia. Eu acho que caiu bem mesmo”, disse.
Conexão carioca e influências internacionais O pontapé inicial do planejamento urbano teve forte inspiração no Rio de Janeiro da década de 1920, durante a gestão do prefeito Antônio da Silva Prado Júnior. O modelo carioca abriu portas para a vinda do arquiteto francês Alfred Agache ao país. Pedro Ludovico convidou Agache e o urbanista Armando de Godoy para conhecerem a região da nova capital.
“Alfred Agache chegou a pisar em solo goiano a convite de Pedro Ludovico. E naquela época, veio também Armando de Godoy”, destacou a escritora.
Apesar de não executar a obra diretamente, Agache indicou a sociedade de franceses que enviou Attilio Corrêa Lima para assumir o projeto, consolidando a presença do estilo Art Déco. A cidade também recebeu contribuições de estrangeiros como o alemão Ewald Janssen, responsável pelo traçado do Setor Pedro Ludovico e pela sugestão de incluir a área do Jardim Botânico.
Justificativas oficiais e legado cultural Em 5 de julho de 1942, durante discurso no Teatro Goiânia resgatado por José Ubirajara, Pedro Ludovico defendeu a mudança devido aos problemas crônicos de saneamento e expansão na antiga sede administrativa.
“Entre muitas, deparou-se relevante, prejudicadíssima aos interesses da coletividade e, portanto, do Estado, a permanência da capital na velha Goiás, que Miguel Lino de Matos, Couto Magalhães e outros já haviam condenado para servir como sede do governo”, disse Ludovico.
A estética urbana reflete o cenário pós-Primeira Guerra Mundial, marcado pela busca por leveza e ares modernos. Para Ubirajara, a identidade do município nasceu profundamente ligada às manifestações artísticas.
“Goiânia foi batizada oficialmente tendo a cultura como seu protagonismo. Foi no coração do Teatro Goiânia. Então quando dizem que Goiânia é a capital do sertanejo, essa é uma das expressões musicais, mas não é a única. Ela, eu poderia dizer, que é uma filha adotada de todo um processo de variadas vertentes de manifestações culturais”, disse o escritor.
Com uma população estimada em 1,4 milhão de habitantes conforme dados do IBGE, a metrópole consolida seu desenvolvimento mantendo vivas as marcas de sua rica herança histórica, arquitetônica e cultural.






