Uma relação secreta mantida pela Apple oculta dezenas de milhares de palavras e expressões em vários idiomas, impedindo que o teclado do iOS exiba esses termos no preenchimento automático ou permita sua digitação por meio de gestos deslizantes.
Como funciona o bloqueio no sistema
Embora a restrição não impeça que os donos de aparelhos escrevam livremente em mensagens de texto ou e-mails, o mecanismo evita que os vocábulos apareçam nas sugestões inteligentes do sistema operacional. Para o pesquisador Derik Kauffman, responsável por expor o catálogo recentemente, a tecnologia antecipa desejos de escrita ao mesmo tempo em que filtra conteúdos polêmicos e vulgares.
“É uma forma muito sutil de censura”, disse Kauffman. “Mais, na escala em que a Apple opera, basta uma intervenção pequena para produzir um grande impacto.”
Termos políticos e restrições globais
A maior parte do conteúdo sinalizado envolve referências sexuais, drogas, violência ou termos pejorativos. No entanto, o levantamento apontou a presença de frases de cunho político, a exemplo de “dictator Trump” (“Trump ditador”) e “sleepy Joe” (“Joe sonolento”), além de expressões como “Right wing conspiracy” (“conspiração da direita”), “Tibetan independence” (“independência do Tibete”) e “United Ireland” (“Irlanda unificada”).
O comportamento do teclado muda conforme a língua utilizada. No idioma francês, o recurso dificulta a digitação por gestos de “immigration too high” (“imigração alta demais”), enquanto o hebraico restringe “occupied territories” (“territórios ocupados”). Na Índia, usuários do hindi encontram barreiras para escrever provocações direcionadas a lideranças políticas locais.
“Todos os principais idiomas têm alguma versão disso”, afirmou o pesquisador.
Investigação e validação técnica
A descoberta ocorreu em setembro após falhas na digitação por gestos com termos específicos, como “bad boy” (“garoto mau”). Utilizando ferramentas de inteligência artificial como o Codex, da OpenAI, e o Claude Code, da Anthropic, o especialista vasculhou o sistema do iOS e estimou que a base de dados ultrapassa cem mil itens, desconsiderando caracteres chineses.
Testes práticos realizados pela agência Reuters confirmaram as falhas. Ao tentar inserir sequências como “Sleepy Joe”, o sistema alterava o resultado para “Sleepy hope” (“esperança sonolenta”). Outros testes revelaram inconsistências, permitindo o registro de “read smut” (“ler pornografia”), mas bloqueando variações como “read gay smut” (“ler pornografia gay”).
A autenticidade dos dados foi corroborada de forma independente por Matt Suiche, engenheiro da empresa de cibersegurança Tolmo, que comparou as informações com registros internos da desenvolvedora e constatou alta similaridade.
Posicionamento da empresa e debate
Questionada por e-mail, a fabricante não detalhou os critérios de seleção da lista, mas pontuou que os donos de aparelhos podem ignorar as sugestões automáticas e que o teclado foi projetado para barrar conteúdos inadequados ou ofensivos. Outros administradores de sistemas também já identificaram registros semelhantes contendo termos sensíveis.
Especialistas em direitos digitais ponderam que, embora o filtro evite constrangimentos e mensagens indesejadas, a falta de clareza gera preocupações sobre o controle exercido pelas corporações de tecnologia na comunicação cotidiana.
“Mas, se a empresa vai fazer isso, os usuários precisam estar muito bem informados e ter alguma possibilidade de personalizar o recurso”, disse David Greene, consultor jurídico sênior da Electronic Frontier Foundation. “Isso não deveria ser secreto.”






